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maio 2016

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Nosso entrevistado, José Felipe Rodriguez de Sá é graduado em psicologia pela Universidade Salvador, com pós-graduação em Psicoterapia Analítica pelo Instituto Junguiano da Bahia. Trabalha como clínico na TRIA – Terapia & Consultoria, da qual é sócio-fundador. Também é fundador do Roundtable Mitológico, da Fundação Joseph Campbell em Salvador. Atualmente está cursando Mestrado em Família na Sociedade Contemporânea na UCSal, a Universidade Católica de Salvador.

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O pesquisador e psicólogo José Felipe Rodriguez de Sá realiza estudos na área de sonhos lúcidos.

         1. Quando foi que você ouviu falar de sonhos lúcidos pela primeira vez?

José Felipe de Sá: Foi no primeiro ano de faculdade. Decidi fazer um trabalho sobre sonhos e aí consultei a minha velha coleção “Mistérios do Desconhecido” da Abril/Time-Life. Foi lendo o volume sobre sonhos que descobri que eu podia controlar eles. A partir desse momento fui garimpar nos sebos os livros publicados no Brasil sobre o assunto, entre eles, Sonhos Lúcidos de Stephen LaBerge e Sonhos Criativos de Patricia Garfield. Foi nessa época que eu também comecei a trocar uma ideia com Sérgio Arthuro Mota-Rolim, professor e pós-doutorando da UFRN. Ele é, atualmente, o maior pesquisador de sonhos lúcidos no país.

    2. Você já teve algum sonho lúcido?

José Felipe de Sá: Tive vários…No mais marcante deles o cenário foi o meu apartamento atual. Saí voando do meu quarto para a sala de estar, e quando olhei pela janela percebi que o apartamento tinha ganhado uma varanda gigantesca de mármore que ficava flutuando no meio do ar. Eu aterrissei na varanda perto de uma vegetação luminescente… Pareciam aquelas plantas psicodélicas de Avatar. O que mais me assombrou nesse sonho foi a sensação física de tocar nas folhas– era como seu tivesse tocando numa planta de verdade.

     3. Para muita gente, falar em psicologia é ainda falar de Sigmund Freud. O criador da psicanálise escreveu alguma coisa a respeito dos sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Sim. Na segunda edição de A Interpretação dos Sonhos (1909), Freud adicionou uma nota falando sobre a habilidade de controlar os sonhos. Ele volta ao tema em Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (196-1917), onde  repete que o sonho pode ser controlado, mas apenas na sua camada mais superficial, a visual (ou “manifesta”). Já a camada mais profunda, inconsciente do sonho, não pode. Além disso, Freud tinha a percepção de que o “Isso é um sonho” – o gatilho que dispara um sonho lúcido – era uma atitude de defesa contra a revelação de alguma coisa ameaçadora para a consciência.

Original Caption: Sigmund Freud, 1856-1939, Austrian psychiatrist, in the office of his Vienna home looking at a manuscript. B/w photo ca.1930.
2. O neurologista vienense Sigmund Freud (1856-1939), criador da psicanálise, trabalhando em seu gabinete.

Concordo em parte com Freud, mas há outros pontos de vista a serem considerados. Os monges budistas do Tibete, por exemplo, há séculos praticam iogas que fazem os seus adeptos se conscientizarem de quando estão sonhando. O objetivo desse exercício é os fazer perceber que os sonhos também são Māyā– o mundo de ilusão criado pelos cinco sentidos. Ou seja: se para Freud o sonho lúcido era um tipo de fuga da realidade, para os budistas tibetanos é justamente o contrário: a lucidez onírica é mais um passo rumo ao Nirvana, a “realidade última”.

     4. Depois de Freud, mais algum psicólogo digno de nota que escreveu sobre sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Sim, mas são pouquíssimos. Sándor Ferenczi, que era do “Comitê” secreto de Freud, escreveu um artigo sobre o que ele chamou de “sonhos dirigíveis”. Ela enxergo uma vontade de continuar no sonho, típica de quem acaba de descobrir as possibilidades criativas dos sonhos lúcidos, a fórmula freudiana do sonho satisfazer um desejo reprimido. Além de Ferenczi teve Ann Faraday e a supracitada Patricia Garfield. O livro de Garfield sobre sonhos lúcidos foi um best-seller na década de 1970.

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O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933) foi um dos colaboradores mais próximos de Sigmund Freud. As suas obras completas foram publicadas no Brasil pela Martins Fontes.

     5. Porque os psicólogos tiveram pouco interesse pelos sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Acho que foi porque os sonhos lúcidos, como campo de pesquisa científico, começou fora da psicologia. Basta ver a formação dos pioneiros da área: Celia Green é parapsicóloga, Charles Tart é psiquiatra, LaBerge é químico, etc. Tenho impressão que os psicoterapeutas também não enxergam o potencial clínico dos sonhos lúcidos na sua prática do dia a dia.

      6. Existem aplicações terapêuticas para os sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Claro. Com certeza! Eu sei de pelo menos um estudo onde dois pesquisadores usaram os sonhos lúcidos no tratamento de pessoas que sofriam com pesadelos recorrentes. Com a aplicação dos sonhos lúcidos, os pesquisadores perceberam que não só a frequência dos pesadelos diminuiu, como teve também um aumento geral na qualidade do sono dos pesquisados.

7. Há pouco tempo um artigo seu sobre sonhos lúcidos foi publicado na Fractal, a revista de psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Você pode resumir o artigo para os nossos leitores?

José Felipe Sá: Quando comecei a ler sobre o assunto, percebi que os personagens dos sonhos lúcidos tendem a ser muito mais articulados do que as de um sonho comum. Isso me deixou intrigado;o que é que a teoria Junguiana poderia dizer sobre essa racionalidade “extra” dos personagens oníricos, já que o próprio Jung não escreveu uma linha sequer sobre sonhos lúcidos? Para tentar responder essa pergunta usei o conceito de Sombra – a parte reprimida de nossa personalidade – e a teoria dos complexos, que fala das “subpersonalidades” autônomas criadas por traumas que à vezes invadem a nossa consciência em situações difíceis.

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O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) foi uma figura fundamental na história da psicologia. Aqui, Jung analisa um de seus símbolos favoritos – a mandala tibetana.

       8. Você ainda pretende pesquisar mais sobre esse assunto?

José Felipe de Sá: Esse artigo da Fractal é o primeiro de três trabalhos que vou escrever sobre sonhos lúcidos.O segundo vai ser uma comparação entre os sonhos lúcidos e a técnica Junguiana da Imaginação Ativa. O terceiro vai ser baseado nos escritos de James Hillman, criador da Psicologia Arquetípica e grande reformador do pensamento Junguiano. Em vez de interpretar sonhos, Hillman acredita devemos trabalhar os sonhos como se fosse uma espécie de massinha de modelar: tiramos uma parte daqui, modificamos dali e nessa brincadeira o inconsciente vai naturalmente preenchendo as lacunas. Ou seja: transformamos de novo o sonho numa coisa viva, no lugar de reduzi-loa algo inerte que vai ser fria e passivamente dissecada por especialistas. Para mim, essa perspectiva casa muito bem com as possibilidades infinitamente criativas que os sonhos lúcidos proporcionam.

       9. Uma mensagem final para os nossos leitores?

José Felipe de Sá: Obrigado pelo espaço cedido, Márlon. E aos leitores do blog, boa semana…E bons sonhos!

O artigo citado na entrevista pode ser encontrado aqui: http://www.scielo.br/pdf/fractal/v28n1/1984-0292-fractal-28-1-0146.pdf

Um experimento interessante é praticado com certa frequência no Fórum e no Grupo do Facebook de sonhadores lúcidos. Trata-se dos “Desafios Lúcidos”, oportunidade na qual alguém propõe um experimento/desafio e os todos interessados podem participar. Recentemente foi proposto o Desafio das Sombras.

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O experimento:
Encontrar sua “Sombra”.

Para Carl Jung “a sombra é via de regra vivida em sonhos como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente.”

O Sonho:

Caminhando pela rua, lembrei de fazer o Desafio da Sombra. Observei o chão e vi minha sombra… e logo continuei caminhando não aceitando, afinal gostaria de conhecer minha sombra de arquétipo. Aquela, tal qual conceituada por Carl Jung. Encontrei um portão e o abri. Apareceu um cachorro preto que lembrava muito nossa cachorrinha Amy.

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Te peguei!

Fiz uma corrida pela rua, pensando na melhora da minha performance no estado desperto. Corri numa descida, dei a volta numa quadra e o sonho começou a se desintegrar.

Segui caminhando, enquanto o ambiente se apagava. Virei-me desejando encontrar uma porta, esticando meu braço e pensando na porta que viria. Senti a maçaneta e abri a porta. Entrei num ambiente que era um bar. Escutei uma linda música de orquestra ao fundo. Ergui meus braços e ouvi que a música respondia aos meus movimentos. Era uma música linda, ao estilo trilha sonora de Duna. Caminhei pelo bar, fui ao fundo dele, encontrei um banheiro… saí dele e vi dois pequenos andares dentro do bar.

Saltei desejando encontrar minha sombra lá em cima. Encontrei no último, era uma verdadeira sombra, sólida, de formato humano, com olhos grandes, arisca e parecia querer morder seu próprio dedo… seria ansiedade, medo… tinha uma aparência frágil, bastante jovem, cabelo liso e um pouco comprido.

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Sobre as Técnicas aplicadas:

– Anotação dos Sonhos no Diário de Sonhos.

– Aplicação da Técnica MILD.

– Reality Check das mãos(pelo menos 5x ao dia). Uso o relógio de pulso virado ao contrário para disfarçar que estou fazendo um reality check.

– Ao olhar para as mãos, também questiono “Estou sonhando ou não?”

Para o próximo post teremos uma entrevista com Zé Felipe de Sá, sobre sonhos lúcidos e seu recente artigo publicado sobre o tema. Grande abraço e bons sonhos para todos nós!