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Entrevista

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   O texto de hoje merece uma atenção bem especial. Trata-se de uma entrevista com o pesquisador brasileiro Alexandre Valença, o qual defende sua tese na área de sonhos lúcidos e com o bônus de um link (disponibilizado pelo entrevistado) para quem quiser colaborar, respondendo ao questionário. Cada pessoa que disponibilizar um tempo para responder, estará dando uma valiosa contribuição para o avanço do nosso tão estimado tema.

   Nosso entrevistado, Alexandre Valença é Psicólogo Clínico, Professor de Psicologia pela Universidade Santa Úrsula e Estácio, Mestre em História da Ciência, das Técnicas e Epistemologia pelo HCTE / UFRJ (2013). Doutorando pelo HCTE/ UFRJ, na linha de pesquisa de Epistemologia – Teorias da Mente, pesquisando as relações entre sono, aprendizagem, memória e processos criativos. Coordenador do Grupo de Reflexão Interdisciplinar Fórum Atenas, fundado em 1998, formado por profissionais e pesquisadores de diversos campos de conhecimento como Filosofia, Psicologia,Engenharia, Medicina, Antropologia e Astronomia,entre outros. O Grupo tem entre seus temas de estudo principais: Consciência,Epistemologia, Inteligência Artificial e Criatividade. Palestrante.

O link com o questionário, para colaborar com a pesquisa:

http://www.hcte.ufrj.br/sonhos-lucidos.htm

“O questionário que está online é uma ferramenta poderosa para o estudo epidemiológico dos sonhos lúcidos (SL) no Brasil”. 

1) Qual a origem do seu interesse pelo tema dos sonhos lúcidos? Quando e de que maneira isso aconteceu?

Bom começo! Gosto dessa questão porque ela remete a uma certa crise que tive ainda no meio do meu mestrado. E esta crise foi fundamental para mudar o tema e o rumo de toda minha pesquisa. A história é longa, então, vou contar a versão “remix”, como costumo dizer. No meio dessa “crise”, insatisfeito com o tema que eu estava desenvolvendo, resolvi participar de um Congresso de Neurociência que aconteceria em Belo Horizonte. Nunca tinha ouvido falar de sonhos lúcidos, até então. Isso devia ser 2011. Lá, entre muitas apresentações de trabalhos e palestras, o Sidarta Ribeiro comentaria o filme “Waking Life” (que recomendo a todos) e, em algum momento, o Sidarta mencionou a expressão “sonhos lúcidos”. Aquela junção de palavras, expressava um paradoxo fascinante – sonho e lucidez – ocorrendo de forma simultânea. Obviamente, não pude deixar de questionar o Sidarta sobre o tema. Daí, depois saímos para umas cervejas, falamos mais sobre sonhos lúcidos e o interesse pelo tema só aumentou.

Quando voltei para o Rio de Janeiro, pesquisei alguns artigos e levei a ideia pro meu orientador, Luis Pinguelli Rosa, que foi bem receptivo ao tema, já que gosta de desafios. O Pinguelli é um dos fundadores da linha de pesquisa que aborda Teorias da Mente e Estudos sobre a Consciência no HCTE/UFRJ, um programa de pós-graduação interdisciplinar, formado por pesquisadores de diversas áreas como Física, Astronomia, História, Engenharia, Matemática, Antropologia, Biologia, entre outros. O Sidarta acabou sendo co-orientador no meu Mestrado.

Assim, começava minha pesquisa sobre os sonhos lúcidos. Vale salientar que minha pesquisa sempre teve uma perspectiva interdisciplinar. No mestrado, o trabalho apontava as relações entre sonhos, aprendizagem, memória e criatividade desde a Antiguidade até a Neurociência contemporânea, passando por Freud e a neurofisiologia do sono. Agora, no doutorado, a pesquisa está mais focada nos sonhos lúcidos, mas sem perder a perspectiva interdisciplinar.

2) Já experimentou um sonho lúcido? Como foram suas experiências? (Caso sim, fique à vontade para relatar – ou não – a primeira e/ou uma bem marcante).

Já experimentei alguns e é uma sensação fantástica. Os mais incríveis foram – sem dúvida- poder experimentar a sensação de voar!  Esse é um dos maiores atrativos dos sonhos lúcidos: poder realizar coisas que – normalmente – não podemos realizar na nossa vida de vigília. Não é à toa que voar está entre os temas favoritos entre os onironautas, no mundo todo, como indicam algumas pesquisas. Mas, a maioria dos meus sonhos lúcidos tem curta duração.

Photo by Darius Bashar on Unsplash

Infelizmente, os sonhos lúcidos são menos frequentes do que nós gostaríamos. E eu, até agora, preferi não me dedicar mais fortemente às técnicas de indução. Aliás, mais à frente, podemos voltar à questão das técnicas de indução, que é um aspecto que vale ser mais investigado.

De toda forma, esse estado híbrido de consciência, onde podemos vivenciar certo controle sobre conteúdos oníricos, é instigante e marca quem já teve essa experiência. Conheço algumas pessoas que tem SL frequentemente e com um bom nível de controle sobre eles. O que fascina nos sonhos é que, quando estamos vivenciando determinadas situações nos sonhos,as emoções são intensas, e os fatos parecem reais (ao menos na grande maioria das vezes). Desta forma, os SL, que possibilitam manipular elementos do sonho, podem ser utilizados como pura diversão também. Como se fosse “mais um ambiente virtual”, onde podemos experimentar coisas que não são possíveis normalmente. Mas, assim como os “games”, precisamos investigar se uma exposição repetida/ frequente pode gerar ou estar correlacionada com algum malefício.

3) Qual o objeto principal da sua tese? Poderia nos contar sobre alguns objetivos e hipóteses levantadas?

Vou tentar explicar tudo numa linguagem bem coloquial, sem “academicismo”, já que o espaço aqui é de divulgação científica. A tese está dividida em duas frentes: uma investigação teórica, de caráter interdisciplinar, capturando dados sobre os processos oníricos desde a Antiguidade, começando na Mesopotâmia – onde temos o registro do que é considerado o primeiro “livro dos sonhos” –  até a Neurociência contemporânea, passando por Freud, Jung, neurofisiologia do sonho, e por relações com aspectos místicos e religiosos como os encontrados no Tibete e no xamanismo, por exemplo. Esse corpo teórico, bastante amplo e interdisciplinar, é fundamental para uma abordagem de um fenômeno complexo como os sonhos lúcidos.

As informações extraídas desse amplo levantamento indicaram alguns caminhos, algumas lacunas e novas questões para as quais não tínhamos respostas evidentes. Aí, entra a segunda frente da pesquisa: o questionário online sobre os sonhos lúcidos para tentar elucidar algumas dessas lacunas. Felizmente, Marlon, tivemos sua grande receptividade para divulgar a pesquisa e o link para o questionário aqui. Esse espaço é fundamental porque seu blog é, sem dúvida, uma referência no tema e para todos onironautas.

Então, um dos objetivos da tese é produzir um amplo painel do onironauta brasileiro. Pretendemos também, identificar  características psico-socio-ambientais-comportamentais que possam estar relacionadas com a ocorrência e frequência dos sonhos lúcidos, por exemplo.  Esses dados, dependendo da amostra, podem ser amplificados e vão dialogar com pesquisas semelhantes que estão ocorrendo em outros países.

Photo by Alex Holyoake on Unsplash

Temos, naturalmente, hipóteses de trabalho, mas… prefiro não mencionar as hipóteses, já que essa informação poderia contaminar de alguma forma as respostas  dos participantes da pesquisa. Contudo, tão logo os resultados estejam consolidados,  prometo divulgar aqui no site.

4) Em uma perspectiva acadêmica, na sua área, como é adentrar nessa seara? Quais as maiores dificuldades enfrentadas para o desenvolvimento dessa pesquisa?

Penso que as pesquisas sobre o tema têm trazido cada dia mais respaldo e interesse sobre os sonhos lúcidos. No campo das pesquisas científicas, os sonhos lúcidos ainda são um tema relativamente recente. Vale lembrar que as primeiras publicações do LaBerge aceitas em revistas científicas são da década de 1980. Além disso, acredito que o interesse pelos SL aumentou, sensivelmente, nos últimos anos. Mas, não percebo nenhum tipo de resistência ou desconfiança quanto ao fenômeno dos sonhos lúcidos, diferentemente do que ocorria até a publicação das pesquisas de LaBerge, que tornaram-se uma referência. Um quadro bem diferente das décadas anteriores, quando o fenômeno dos SL era visto com desconfiança, como algo contraditório por definição e, por isso, inexistente ou bastante duvidoso. Mas, após os experimentos realizados em laboratório, com alto nível de controle de variáveis e observação dos correlatos neurofisiológicos, os sonhos lúcidos são uma“realidade”.

As questões em pauta hoje , me parecem, estão na busca de melhor compreensão e delineamento do fenômeno, a busca de “causas” e/ou “correlações” com uma série de fatores e condições que favorecem sua ocorrência e frequência,que também investigamos através do questionário que está aqui no blog. Paralelamente a estes aspectos, há a necessidade de melhor compreensão dos correlatos neurofisiológicos envolvidos. Esta parte está relacionada com a questão que você levantou sobre as dificuldades envolvendo as pesquisas sobre SL. Vou retomar a questão na sequência.

A maior dificuldade para quem pesquisa sonhos lúcidos está no fato – como diversas pesquisas indicam – que os SL não são frequentes para a maioria dos indivíduos. Ou seja, as pessoas até têm SL, mas não frequentemente. Os números sobre ocorrência e frequência dos SL mudam bastante de país para país, conforme apontam diversas pesquisas. No entanto, a discrepância entre esses números pode ter relação, também, com questões metodológicas, sobre a própria definição do que é um “sonho lúcido”. Basta estar lúcido durante o sonho ou é necessário ter a habilidade de manipular/ controlar elementos do sonho? Essa discussão, que está presente no meu trabalho, é fundamental para delinearmos com clareza o que estamos chamando de “sonho lúcido”.

Voltando ao cerne da sua pergunta: temos, basicamente, duas grandes dificuldades envolvendo a pesquisa de sonhos lúcidos. Uma refere-se à questão da baixa frequência de SL na população em geral. A metodologia científica “pede” que nós tenhamos uma amostra grande o suficiente para que ela seja representativa e possamos ampliar os resultados. A outra dificuldade é que muito do que ainda podemos descobrir sobre os SL depende de uma maquinaria sofisticada, capaz de mapear a atividade cerebral durante a ocorrência dos sonhos lúcidos, o que exige um ambiente laboratorial, com o controle de diversas variáveis.

Nesse caso, duas dificuldades:

  1. a) O alto custo envolvido nessa maquinaria;
  2. b) Conseguir que indivíduos tenham SL num ambiente de laboratório, um ambiente controlado que não facilita o relaxamento dos sujeitos envolvidos no experimento.
Photo by Steve Roe on Unsplash

 

Sabemos que mesmo sonhadores lúcidos experientes, que tem SL frequentemente, encontram dificuldades de alcançarem a lucidez num ambiente de laboratório.

Outra questão é que o sonho (ainda) é uma experiência privada. É uma experiência de primeira pessoa.

Além disso, precisamos de mais investimento para pesquisas nessa área. Precisamos desenvolver parcerias para ampliar os estudos e acesso aos equipamentos necessários para aprofundar os aspectos neurofisiológicos envolvidos nos sonhos lúcidos.

Eu diria que essas são as maiores dificuldades.

5) Existem outras pesquisas instigantes, por exemplo, aquelas referentes ao aprimoramento de habilidades motoras. Alguma aposta sua, sobre futuras pesquisas promissoras na área dos sonhos lúcidos?

A parte de possíveis aplicações dos SL é muito instigante. Mas, também me traz preocupações, inclusive éticas. “Explorar” os sonhos, ocupar e direcionar esse “tempo” que é um tempo precioso, envolvido em processos fundamentais para nossa saúde e bem-estar, merece cuidado.

Sobre pesquisas futuras, pretendo, brevemente, investigar e comparar SL, meditação e imaginação ativa como “ferramentas” para o desenvolvimento de habilidades. Além disso, muitas ideias devem surgir com os resultados do questionário sobre os SL e da tese.

Nós falamos muito dos possíveis benefícios advindos dos sonhos lúcidos,mas precisamos investigar possíveis malefícios também. Por exemplo, se uma frequência acentuada de sonhos lúcidos pode trazer algum malefício ou distúrbio. Outra questão a ser conferida num futuro próximo é: se o sono e os sonhos “normais” (não lúcidos)estão envolvidos e favorecem os processos de aprendizagem , memória e criatividade ( como apontam pesquisas), uma alta frequência de SL pode prejudicar esses processos?

Então, até aqui, as pesquisas têm focado, sobretudo, nos benefícios. Temos uma ênfase nas possibilidades de utilização dos SL como “ferramenta” para o desenvolvimento de habilidades (cognitivas e motoras) e como recurso terapêutico no tratamento de pesadelos,decorrentes de estresse pós-traumático (como vítimas de violência, guerras, etc). Contudo,ainda temos que averiguar, cuidadosamente, possíveis disfunções e / ou correlações “mórbidas” dos SL com algumas alterações psíquicas. A “intensidade” dos SL é outra questão a ser conferida.

Uma aposta para o futuro? Que as pesquisas envolvendo os SL vão colaborar na compreensão de alguns distúrbios psíquicos. A possibilidade de “comunicação” com o sujeito que está sonhando e a leitura de dados dos correlatos neurais da atividade onírica em “tempo real”, é um caminho que me parece muito promissor.

 

 

6) É possível identificar áreas diversas desenvolvendo estudos, artigos e experimentos sobre a consciência nos sonhos. Neurofisiologia, psicologia, filosofia, psiquiatria, ciência do sono, entre outras. Tens vivenciado um pouco dessa interdisciplinaridade?

A interdisciplinaridade está presente na minha vida há muito tempo. Coordeno um grupo de estudos interdisciplinar, o Fórum Atenas – Filosofia – Ciências – Artes, que está completando 20 anos! Então, vivencio a interdisciplinaridade antes mesmo dela virar uma referência no meio acadêmico. Aliás, vale uma reflexão sobre a Interdisciplinaridade: principalmente nos últimos 10 anos CAPES/CNPQ (agências fomentadoras de pesquisas) e MEC mantêm um discurso de apoio e incentivo à interdisciplinaridade. O discurso, infelizmente, está longe de um apoio concreto, principalmente nos últimos tempos.  A formação nas Universidades ainda é altamente disciplinar e pouco espaço para os egressos de programas de pós-graduação interdisciplinares. Os concursos para novos docentes nas universidades produziram pouco espaço (vagas) para pesquisadores oriundos de programas interdisciplinares.

Isso acaba gerando um gap enorme entre o discurso de CAPES/ CNPQ / Ministério da Educação, e o espaço real para a interdisciplinaridade nas Universidades brasileiras. Os concursos para novos docentes/ pesquisadores continuam – na sua imensa maioria – exigindo uma formação extremamente conservadora com o pesquisador tendo que ter feito sua graduação- mestrado e doutorado – no mesmo curso. Então, se você é astrônomo ou psicólogo de formação (graduação) ,mas fez seu mestrado e/ ou doutorado em programa interdisciplinar, poderá encontrar dificuldades, infelizmente. Os programas de pós-graduação interdisciplinares estão gerando pesquisadores com enorme dificuldade de encontrarem espaço nas Universidades. Espero que esse quadro mude.

Mas, voltando ao cerne da sua questão. A minha pesquisa é marcada pela interdisciplinaridade. O trabalho começa trazendo a visão das sociedades antigas sobre os sonhos, começando com um livro encontrado na Mesopotâmia, escrito há milhares de anos, ainda em placas de argila, em escrita cuneiforme.A partir daí, produzimos um painel sobre a visão das sociedades antigas – como Grécia, Egito, China sobre os sonhos. Daí, passamos pelas abordagens da Psicanálise freudiana, da psicologia analítica de Jung, da Fisiologia, Filosofia e da Neurociência contemporânea. Então, é um trabalho profundamente interdisciplinar.

7) Uma das ferramentas do seu trabalho é o questionário que será divulgado aqui no site/Fórum/Grupo Facebook. Poderia nos informar da importância ou contribuição para o estudo dos sonhos lúcidos e outras áreas?

Esse questionário é uma parte de grande relevância para a pesquisa como um todo. O questionário, posso afirmar, é o mais amplo já realizado sobre os sonhos lúcidos no mundo. Foi uma opção bastante pensada realizar um questionário mais extenso, mais complexo, que pudesse aprofundar diversos aspectos ainda nebulosos sobre os sonhos lúcidos. Temos certeza que os resultados poderão nos ajudar bastante a compreender melhor diversos aspectos envolvendo os sonhos e os sonhadores.

O questionário que está online é uma ferramenta poderosa parao estudo epidemiológico dos SL no Brasil. Por quê? Porque, através dele produziremos um amplo painel envolvendo diversos aspectos dos sonhos lúcidos na população brasileira e, além disso, poderemos identificar fatores / características dessa amostra que possam ser generalizadas, dialogando com outras pesquisas realizadas em diversos países e, desta forma, contribuir para melhor compreensão dos sonhos lúcidos.

 

 

Vale lembrar que temos um estudo epidemiológico desenvolvido pelo Rolim (Sergio Arthuro Motta Rolim) para sua tese, em 2012.  Foi um trabalho pioneiro aqui no Brasil e sua pesquisa já trazia dados instigantes que colaboraram, juntamente com informações de outras pesquisas, para a criação desse questionário. Será valioso comparar alguns dados das duas pesquisas e também com outros estudos realizados em diversos países.

Quero aproveitar para agradecer, mais uma vez, o importante espaço para divulgar o questionário aqui no site. Aliás, esse site é, sem dúvida, de absoluta relevância na divulgação de tudo que acontece no “mundo dos sonhos lúcidos”. O site é uma referência e o Márlon incansável no trabalho de atualização, trazendo todas as novidades nas pesquisas, sempre antenado nos novos artigos, técnicas de indução, filmes & cia.

Bom,voltando ao questionário. Apesar de termos avançado bastante nas pesquisas sobre os sonhos e, especialmente, sobre os sonhos lúcidos nos últimos anos, muitas questões permanecem em aberto. Por exemplo, como mencionei anteriormente: existem características / fatores psico-socio-ambientais– comportamentais correlacionados com a ocorrência/ frequência de sonhos lúcidos nos indivíduos? Se sim, que fatores/ características seriam esses? É possível estabelecer relações de “causalidade”? Quais as “correlações” possíveis? Gênero, idade, qualidade e quantidade de sono, crenças, escolaridade, estados de humor, sonhos em “primeira pessoa’, nível de controle, intensidade do sonho, etc…. São muitas possibilidades!  E elas estão investigadas em nossa pesquisa e envolvidas neste questionário. Há uma pesquisa recente de LiatAviram e NiritSoffer-Dudek, por exemplo, apontando a relevância da questão da “intensidade” do sonho lúcido.

Essas são (entre muitas outras) questões instigantes, porque temos dados de pesquisas anteriores, em diversos países,com dados de ocorrência e frequência de sonhos lúcidos bem diferentes nas suas populações. Temos estudos em diversos países e com diferentes grupos de indivíduos, desde estudantes universitários até atletas de alta performance, da China ao Brasil.

Sabemos que ter sonhos lúcidos é uma habilidade que pode ser treinada, mas…ainda sabemos pouco sobre este ponto. A pesquisa busca saber, por exemplo, se os indivíduos costumam usar as “técnicas de indução” e se sentem que elas são eficientes. Queremos averiguar hábitos de sono, características pessoais, crenças dos indivíduos, etc. Claro que estaremos capturando uma experiência subjetiva, um relato de primeira pessoa, e o ideal é que possamos cruzar esses dados com investigações experimentais, em ambientes controlados. Mas, conhecemos a dificuldade de, mesmo um sonhador lúcido experiente, alcançar a lucidez num ambiente experimental. Então, o questionário é fundamental para coletar aspectos relevantes da experiência dos indivíduos, que podem colaborar para a compreensão deste fenômeno complexo.

Acredito que teremos informações novas, que fomentarão outras novas pesquisas e dados que podem corroborar achados envolvendo aprendizagem, desenvolvimento de habilidades, criatividade, entre outros.

O questionário investiga aspectos da manipulação e controle sobre os conteúdos oníricos, tempo médio dos sonhos, frequência, uso das técnicas de indução, pesadelos, nível de controle, etc. Mas, prefiro não falar muito do conteúdo questionário, até para não influenciar nas respostas. O melhor mesmo – para quem está curioso – é entrar no link e respondê-lo! Tenho certeza que quem tem interesse por sonhos lúcidos vai se sentir animado com as questões e não vai sentir o tempo passar. E, tenho certeza, que será uma colaboração importante para entendermos mais esse “estado híbrido de consciência” como a Ursula Voss, uma das mais importantes pesquisadoras sobre o tema, também gosta de chamar.

Então, finalizo convocando os amigos do site: participem e divulguem a pesquisa. rs.

Agradeço e desejo ótimos sonhos lúcidos para todos!

Entrevista imperdível com Sérgio Arthuro Mota Rolim, sobre Sono e Sonhos Lúcidos, no Café Filosófico. A entrevista trata de temas como o sono e os sonhos, a consciência nos sonhos ou os sonhos lúcidos, possíveis benefícios e aplicações das pesquisas com sonhos lúcidos, além de outros temas relacionados. Confira:

Outras entrevistas com o Sérgio Rolim, podem ser conferidas nos seguintes links:

https://sonhoslucidos.com/sonhoslucidos/entrevista-com-sergio-rolim-pesquisador/

https://sonhoslucidos.com/sonhoslucidos/entrevistando-o-dr-sergio-rolim-ultimos/

Fonte:
https://www.facebook.com/cafefilosoficotvu/

Nosso entrevistado, José Felipe Rodriguez de Sá é graduado em psicologia pela Universidade Salvador, com pós-graduação em Psicoterapia Analítica pelo Instituto Junguiano da Bahia. Trabalha como clínico na TRIA – Terapia & Consultoria, da qual é sócio-fundador. Também é fundador do Roundtable Mitológico, da Fundação Joseph Campbell em Salvador. Atualmente está cursando Mestrado em Família na Sociedade Contemporânea na UCSal, a Universidade Católica de Salvador.

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O pesquisador e psicólogo José Felipe Rodriguez de Sá realiza estudos na área de sonhos lúcidos.

         1. Quando foi que você ouviu falar de sonhos lúcidos pela primeira vez?

José Felipe de Sá: Foi no primeiro ano de faculdade. Decidi fazer um trabalho sobre sonhos e aí consultei a minha velha coleção “Mistérios do Desconhecido” da Abril/Time-Life. Foi lendo o volume sobre sonhos que descobri que eu podia controlar eles. A partir desse momento fui garimpar nos sebos os livros publicados no Brasil sobre o assunto, entre eles, Sonhos Lúcidos de Stephen LaBerge e Sonhos Criativos de Patricia Garfield. Foi nessa época que eu também comecei a trocar uma ideia com Sérgio Arthuro Mota-Rolim, professor e pós-doutorando da UFRN. Ele é, atualmente, o maior pesquisador de sonhos lúcidos no país.

    2. Você já teve algum sonho lúcido?

José Felipe de Sá: Tive vários…No mais marcante deles o cenário foi o meu apartamento atual. Saí voando do meu quarto para a sala de estar, e quando olhei pela janela percebi que o apartamento tinha ganhado uma varanda gigantesca de mármore que ficava flutuando no meio do ar. Eu aterrissei na varanda perto de uma vegetação luminescente… Pareciam aquelas plantas psicodélicas de Avatar. O que mais me assombrou nesse sonho foi a sensação física de tocar nas folhas– era como seu tivesse tocando numa planta de verdade.

     3. Para muita gente, falar em psicologia é ainda falar de Sigmund Freud. O criador da psicanálise escreveu alguma coisa a respeito dos sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Sim. Na segunda edição de A Interpretação dos Sonhos (1909), Freud adicionou uma nota falando sobre a habilidade de controlar os sonhos. Ele volta ao tema em Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (196-1917), onde  repete que o sonho pode ser controlado, mas apenas na sua camada mais superficial, a visual (ou “manifesta”). Já a camada mais profunda, inconsciente do sonho, não pode. Além disso, Freud tinha a percepção de que o “Isso é um sonho” – o gatilho que dispara um sonho lúcido – era uma atitude de defesa contra a revelação de alguma coisa ameaçadora para a consciência.

Original Caption: Sigmund Freud, 1856-1939, Austrian psychiatrist, in the office of his Vienna home looking at a manuscript. B/w photo ca.1930.
2. O neurologista vienense Sigmund Freud (1856-1939), criador da psicanálise, trabalhando em seu gabinete.

Concordo em parte com Freud, mas há outros pontos de vista a serem considerados. Os monges budistas do Tibete, por exemplo, há séculos praticam iogas que fazem os seus adeptos se conscientizarem de quando estão sonhando. O objetivo desse exercício é os fazer perceber que os sonhos também são Māyā– o mundo de ilusão criado pelos cinco sentidos. Ou seja: se para Freud o sonho lúcido era um tipo de fuga da realidade, para os budistas tibetanos é justamente o contrário: a lucidez onírica é mais um passo rumo ao Nirvana, a “realidade última”.

     4. Depois de Freud, mais algum psicólogo digno de nota que escreveu sobre sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Sim, mas são pouquíssimos. Sándor Ferenczi, que era do “Comitê” secreto de Freud, escreveu um artigo sobre o que ele chamou de “sonhos dirigíveis”. Ela enxergo uma vontade de continuar no sonho, típica de quem acaba de descobrir as possibilidades criativas dos sonhos lúcidos, a fórmula freudiana do sonho satisfazer um desejo reprimido. Além de Ferenczi teve Ann Faraday e a supracitada Patricia Garfield. O livro de Garfield sobre sonhos lúcidos foi um best-seller na década de 1970.

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O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933) foi um dos colaboradores mais próximos de Sigmund Freud. As suas obras completas foram publicadas no Brasil pela Martins Fontes.

     5. Porque os psicólogos tiveram pouco interesse pelos sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Acho que foi porque os sonhos lúcidos, como campo de pesquisa científico, começou fora da psicologia. Basta ver a formação dos pioneiros da área: Celia Green é parapsicóloga, Charles Tart é psiquiatra, LaBerge é químico, etc. Tenho impressão que os psicoterapeutas também não enxergam o potencial clínico dos sonhos lúcidos na sua prática do dia a dia.

      6. Existem aplicações terapêuticas para os sonhos lúcidos?

José Felipe de Sá: Claro. Com certeza! Eu sei de pelo menos um estudo onde dois pesquisadores usaram os sonhos lúcidos no tratamento de pessoas que sofriam com pesadelos recorrentes. Com a aplicação dos sonhos lúcidos, os pesquisadores perceberam que não só a frequência dos pesadelos diminuiu, como teve também um aumento geral na qualidade do sono dos pesquisados.

7. Há pouco tempo um artigo seu sobre sonhos lúcidos foi publicado na Fractal, a revista de psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Você pode resumir o artigo para os nossos leitores?

José Felipe Sá: Quando comecei a ler sobre o assunto, percebi que os personagens dos sonhos lúcidos tendem a ser muito mais articulados do que as de um sonho comum. Isso me deixou intrigado;o que é que a teoria Junguiana poderia dizer sobre essa racionalidade “extra” dos personagens oníricos, já que o próprio Jung não escreveu uma linha sequer sobre sonhos lúcidos? Para tentar responder essa pergunta usei o conceito de Sombra – a parte reprimida de nossa personalidade – e a teoria dos complexos, que fala das “subpersonalidades” autônomas criadas por traumas que à vezes invadem a nossa consciência em situações difíceis.

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O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) foi uma figura fundamental na história da psicologia. Aqui, Jung analisa um de seus símbolos favoritos – a mandala tibetana.

       8. Você ainda pretende pesquisar mais sobre esse assunto?

José Felipe de Sá: Esse artigo da Fractal é o primeiro de três trabalhos que vou escrever sobre sonhos lúcidos.O segundo vai ser uma comparação entre os sonhos lúcidos e a técnica Junguiana da Imaginação Ativa. O terceiro vai ser baseado nos escritos de James Hillman, criador da Psicologia Arquetípica e grande reformador do pensamento Junguiano. Em vez de interpretar sonhos, Hillman acredita devemos trabalhar os sonhos como se fosse uma espécie de massinha de modelar: tiramos uma parte daqui, modificamos dali e nessa brincadeira o inconsciente vai naturalmente preenchendo as lacunas. Ou seja: transformamos de novo o sonho numa coisa viva, no lugar de reduzi-loa algo inerte que vai ser fria e passivamente dissecada por especialistas. Para mim, essa perspectiva casa muito bem com as possibilidades infinitamente criativas que os sonhos lúcidos proporcionam.

       9. Uma mensagem final para os nossos leitores?

José Felipe de Sá: Obrigado pelo espaço cedido, Márlon. E aos leitores do blog, boa semana…E bons sonhos!

O artigo citado na entrevista pode ser encontrado aqui: http://www.scielo.br/pdf/fractal/v28n1/1984-0292-fractal-28-1-0146.pdf

Nosso entrevistado que faz uma pesquisa pioneira sobre sonhos lúcidos, Sérgio Arthuro Mota Rolim,  é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2004), com iniciação científica na área de sono, memória e ansiedade. É mestre em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo Escola Paulista de Medicina (2007), trabalhando com a influência dos ritmos biológicos no sono e na memória. Concluiu seu doutorado pela UFRN, tendo como objeto os aspectos sócio-demográficos, cognitivo-comportamentais e neuro-psicológicos do sonho lúcido.

Dr. Sérgio Arthuro Mota Rolim representa o Brasil, na área de pesquisa sobre a presença da consciência nos sonhos.

1)Como os sonhos lúcidos poderiam auxiliar no estudo e/ou tratamento de alguns tipos de psicose? Que relação existe entre esse tipo de transtorno e a consciência nos sonhos?

Sérgio: Durante o sonho, o cérebro gera imagens e sons que não são decorrentes da estimulação vinda do ambiente (ao contrário do que acontece quando estamos acordados), o que é bastante semelhante as alucinações visuais e auditivas dos pacientes esquizofrênicos. Além disso, nossa capacidade de julgamento racional durante os sonhos está bastante diminuída (com a exceção dos sonhos lúcidos), pois acreditamos que as coisas bizarras que aparecem nos sonhos estão acontecendo de verdade, o que é bastante parecido com os delírios presentes na esquizofrenia. Dessa forma, vários trabalhos têm demonstrado que o sonho é um excelente modelo para o estudo da esquizofrenia. Assim, o estudo dos sonhos (lúcidos ou não) pode também nos ajudar a compreender melhor a psicose.

Com relação ao tratamento em si, ainda estamos apenas engatinhando… No entanto, eu e uma brilhante estudante de medicina que colabora comigo – Adara Resende – levantamos a hipótese de que seria possível que o sonho lúcido pudesse diminuir os delírios psicóticos durante uma crise. Isso aconteceria porque se o sujeito aprender a ficar lúcido no sonho, ele vai ser capaz de emitir um julgamento racional sobre a situação em que se encontra, o que poderia também acontecer enquanto o mesmo estivesse acordado tendo uma crise, ou seja, ele aprenderia a controlar suas alucinações e delírios, como acontece no filme “Uma mente brilhante”. No entanto, por enquanto, podemos apenas especular sobre essa possibilidade do sonho lúcido diminuir também os delírios, já que ainda ninguém testou experimentalmente essa hipótese.

Adara Cabral Resende é estudante de medicina na UFRN e de iniciação cientifica no Instituto do Cérebro, com pesquisa em andamento sobre sonhos lúcidos.

2) Uma perspectiva importante para o uso dos sonhos lúcidos é o tratamento de pessoas com pesadelos recorrentes, pessoas com depressão ou que passaram por algum trauma… pelo seu estudo que alternativas poderiam ser aplicadas, uma vez que o uso do sonho lúcido estivesse consolidado? 

Sérgio: Acreditamos que estando lúcido num pesadelo, o sujeito pode tentar 3 coisas:

1 modificar o sonho = com controle sobre o conteúdo onírico, seria possível tentar transformar o pesadelo num sonho neutro ou até bom.

2 não ter medo do pesadelo = estando lúcido, o sonhador pode perceber que as ameaças que acontecem durante o pesadelo não trazem um perigo físico real.

3 acordar = é possível também acordar durante o pesadelo para acabar com o mesmo, apesar de que alguns autores acreditam que o ideal seria tentar compreender porque o pesadelo está acontecendo daquela forma, até para evitar ter outros.

3) Os sonhos lúcidos podem ser prejudiciais de alguma maneira?

Sérgio: Até agora nada leva a crer que o sonho lúcido em si possa ser prejudicial. No entanto, algumas pessoas não gostam de ter sonhos lúcidos. Na verdade, o que acontece com essas pessoas (até agora eu tive oportunidade de conversar com duas delas) é que elas ficam lúcidas num pesadelo, daí tentam acordar mas não conseguem, como se ficassem presas no sonho. É comum também a relação do sonho lúcido com a paralisia do sono, que é uma das piores sensações que podemos experimentar, pois acordamos e não conseguimos nos mexer.

4) É possível que sonhos conscientes possam contribuir para o aprimoramento de habilidades que envolvam coordenação motora? 
 
Sérgio:  Estudos mostram que simulações mentais de habilidades motoras podem aumentar o desempenho real em tarefas comportamentais: a imaginação repetida de contração muscular aumenta a força muscular propriamente dita, e além disso, simulações mentais melhoram a aprendizagem das habilidades motoras e o desempenho esportivo.          Curiosamente, as habilidades motoras podem ser adquiridas na ausência de um processo de aprendizagem plenamente consciente. Estas observações sugerem que ser capaz de realizar movimentos imaginários durante o sonho lúcido poderia influenciar as habilidades motoras reais durante o estado acordado. Desta forma, os pacientes com deficiência física poderiam praticar tarefas motoras durante o sonho lúcido e avaliar se este “ensaio onírico” diminui os seus sintomas motores. Além disso, o treinamento motor durante o sonho lúcido também pode ser utilizado por indivíduos normais para melhorar suas habilidades físicas.
    Cientistas alemães com quem estamos colaborando fizeram um experimento em que treinavam um grupo de pessoas a jogar uma moeda para dentro de um copo a uma certa distância. Os pesquisadores observaram que aquelas pessoas que treinavam novamente jogar uma moeda num copo durante o sonho lúcido tinham um desempenho real melhor no dia seguinte, ao contrário das pessoas que não treinaram isso no sonho. Esse tipo de pesquisa ainda está na sua fase inicial, mas indica a possibilidade de pessoas comuns ou atletas obtenham uma performance melhorada com um treinamento onírico extra.
5) Seu estudo também envolveu uma análise neurofisiológica desse estado mental. O que mais lhe chamou atenção nesse sentido? 
Sérgio: Nossos resultados preliminares (ainda não publicados), com a análise matemática e estatística do sinal do eletroencefalograma em 5 sujeitos que tiveram sonho lúcido e que conseguiram fazer os movimentos pré-combinados com os olhos, indicam que o sonho lúcido é um estado de transição do sono REM para a vigília, ou seja, apesar de o sonho lúcido ser um sonho, o cérebro está bem próximo de despertar. Quando estamos acordados e de olhos fechados, nosso cérebro entra no estado de sincronização global numa oscilação próxima a 10 ciclos por segundo (ou 10Hz) que é o chamado ritmo alfa, e que está muito associado a meditação. Durante o sonho normal, a potência desse ritmo é muito baixa (numa escala de 0-10 seria = 1).
   Quando o indivíduo está em sonho lúcido, a potência do ritmo alfa sobre para 5, e quando ele acorda vai para 10. Assim, o sonho lúcido seria um estado intermediário entre o sono REM e a vigília. Isso explica porque para a maioria das pessoas o sonho lúcido dura muito pouco (como observamos no questionário que aplicamos pela internet), pois elas acordam logo depois de se darem conta que estavam sonhando. Entretanto, para algumas pessoas essa transição se dá de forma mais gradual e prolongada, aumentando o tempo de duração do sonho lúcido; mas ainda não sabemos porque isso acontece. No questionário que aplicamos, o fator relatado que mais facilitou a ocorrência de sonho lúcido foi dormir sem hora para acordar, o que aumenta enormemente a quantidade de sono REM, pois essa é a fase do sono em que sonhamos, e que acontece principalmente nas últimas horas do sono.
      Observamos também que muitas pessoas relacionam o sonho lúcido com o estresse, que aumenta a quantidade de despertares, fortalecendo a ideia que o sonho lucido é um estado intermediário (ou fase de transição) entre o sono REM e a vigília.
Essa hipótese do sonho lúcido como estado de transição entre o sono REM e a vigília explicaria muito bem os sonhos que já começam lúcidos (como descrito na técnica WILD desenvolvida por Laberge) ou os sonhos que ficam lúcidos só no finalzinho, quando a pessoa está próxima de acordar. No entanto, é possível também ficar lúcido durante o sonho (no meio do sonho por exemplo), principalmente quando nos deparamos com um “sinal de sonho”, que seria algo muito bizarro que só pode acontecer nos sonhos, como a habilidade de voar, ou encontrar alguém que já morreu. Em um dos sujeitos que investigamos, observamos uma ativação na região frontal do cérebro durante o sonho lúcido. Dessa forma, esses resultados sugerem que o sonho lúcido também seria decorrente de uma ativação nessa região. Vários trabalhos na literatura demostram que essa região está relacionada com a auto-consciência e a formação da imagem corporal, logo faz sentido que a mesma esteja ativada durante o sonho lúcido, que é caracterizado pela consciência de estar sonhando durante o sonho.

6)A partir de onde
chegou, que novas perspectivas de estudo mais lhe fascinam ou novas hipóteses
com as quais gostaria de se aprofundar?


   Sérgio:  Gostaria de no pós-doutorado
testar se realmente o sonho lúcido é um estado de transição entre o sono REM e
o estado acordado. O experimento seria dar um estímulo sonoro (que pode ser uma
música por exemplo) durante o sono REM. Esse estímulo sonoro seria inversamente
modulado pela potência da frequência alfa, ou seja, começo com um volume bem
baixo e vou aumento com o tempo até que o indivíduo vai acordando e a potência
do ritmo alfa vai aumentando também. Quando isso acontecer, eu diminuo o volume
do som o que vai fazer com que o sujeito volte a dormir. Daí novamente eu
aumento o volume e assim sucessivamente, como o objetivo de deixar o sonhador o
mais tempo possível na transição entre o sono REM e a vigília. Se o sonho
lúcido acontecer realmente nessa transição, esperamos que dessa forma
consigamos induzir mais sonhos lúcidos.

Será possível trabalhar com estímulos sonoros, controlando gradativamente sua intensidade e incorporando ele nos sonhos e na imersão da consciência nesse estado mental? Alguém aí lembra de um paralelo no filme da imagem? Uau!
Outra forma de induzir o sonho
lúcido seria através de estimulação magnética transcraniana (EMT). A EMT como o nome
diz, consiste em estimular áreas específicas do cérebro com pulsos de campo
magnético sobre o couro cabeludo, ou seja, de forma não invasiva. Em um
dos sujeitos que investigamos, observamos uma ativação na região frontal do
cérebro durante o sonho lúcido. Dessa forma, esses resultados sugerem que o
sonho lúcido também seria decorrente de uma ativação nessa região. Vários
trabalhos na literatura demostram que essa região está relacionada com a
auto-consciência e a formação da imagem corporal, logo faz sentido que a mesma
esteja ativada durante o sonho lúcido, que é caracterizado pela consciência de
estar sonhando durante o sonho. Como alguns trabalhos (inclusive o meu)
observaram que o sonho lúcido está relacionado com a região frontal do cérebro,
é possível que a estimulação dessa região durante o sono REM desencadeie um sonho
lúcido.

Gostaria também de investir em técnicas para
registrar com mais detalhes as áreas cerebrais mais relacionadas com o sonho
lúcido, como a Ressonância Magnética Funcional. A técnica de registro da
atividade do cérebro por RMF consiste em medir as pequenas variações no fluxo
sanguíneo em áreas cerebrais que estão sendo preferencialmente recrutadas por
tipos específicos de tarefas. Quando mexemos a mão (ou pensamos em palavras) há
um aumento do aporte de sangue para as populações neuronais mais relacionadas
com o processamento desses tipos de tarefas, sendo esse sinal (grosseiramente
falando) o que a RMF consegue medir. Poucos laboratórios hoje no mundo estão
fazendo esse tipo de pesquisa, sendo um deles no Instituto Max Planck de
Munique (Alemanha), onde dei palestra no ano passado sobre o meu trabalho, na
tentativa de conseguir uma bolsa de pós-doutorado.

Continuando para a parte final da entrevista com Ryan Hurd, mais 5 perguntas relacionadas com a diferença entre consciência e controle dos sonhos, pesquisas do mundo científico, visão pessoal e experimentos, perspectivas e suas orientações.

Ryan Hurd além da formação de arqueólogo, sonhador lúcido com mestrado e certificação de estudos sobre a consciência pela universidade  de  John F. Kennedy, também é escritor e pesquisador na área.



6) Com relação a controle de sonhos x consciência? Alguns experientes sonhadores lúcidos defendem que existe mais lucidez se existir mais controle… como se o nível de consciência ou lucidez pudesse ser mostrado pelo nível de controle.

Ryan Hurd(RH): Para mim e muitos que usam os sonhos lúcidos como uma prática espiritual, não se trata de controle, mas  em vez disso de uma justa e equilibrada relação com o sonho. Dar e receber, questões e respostas. Controle de sonhos(com isso eu quero dizer manipulação de objetos, transformação e direcionamento de objetos e personagens dos sonhos) isso realmente uma habilidade separada de ser auto-consciente. Eles podem vir juntos é claro, isto é como os sonhos lúcidos vem demonstrando em laboratórios. Mas não é a única maneira de ficar consciente. Ultimamente eu diria que fazer o que você quiser, quando você quiser com quem você quiser soa como uma criança, prestes a ter um ataque gritando – o que não é muito lúcido.

Livro do Ryan sobre Alucinações Hipnagógicas & Visitantes da Noite.

7) Existem experimentos bem excitantes para se fazer nos sonhos lúcidos. Tentar aprimorar habilidades motoras, talvez criar uma melodia, autodesenvolvimento, uma bela pintura, o prazer do sexo, explorar níveis de consciência, memórias… poderia nos dizer algum experimento interessante que você realizou?

RH) Todas essas atividades são saudáveis e caminhos excitantes dos sonhos lúcidos. Eu diria pra seguir seu instinto no sonho, mais do que tentar realizar tarefas que você planejou no estado desperto – porque o nosso sonho é um diferente modo de aprender e pode acessar memórias e realidades que a mente acordada normalmente não tem acesso. Para mim mesmo, uma dos experimentos mais interessantes foi num que eu estava derretendo através de um muro para o chão num sonho, entrando num vazio de escuridão e de lá meditando com desapego até o sonho se reconstruir a minha volta. Foi fascinante observar que cena de sonho viria a seguir e especialmente a forma e natureza do meu próprio corpo de sonho nessas cenas. Em muitos deles, eu emergia voando sobre florestas e rios. Isso foi emocionante. Em outros sonhos eu surgi como uma criança, em uma cena de sonho oriunda da minha própria infância. Esses foram sonhos iluminados que trouxeram oportunidades de interagir com memórias antigas de um passado esquecido.

8) Muitos pesquisadores ao redor do mundo estão fazendo estudos fascinantes. Aqui no Brasil, por exemplo nós temos nomes como Sidarta Ribeiro e Sergio Rolim. Daniel Erlacher e outros pesquisadores fazem progressos, estabelecendo relações entre o treinamento e desenvolvimento de habilidades motoras com os sonhos lúcidos. O que você pensa sobre o(s) próximo(s) mais promissor(es) avanço(s)? Algo como uma superconsciência? Novos mestres como Salvador Dali… ou novos arqueiros como Robin Hood?!

RH) A pesquisa sobre sonho lúcido está realmente decolando agora ao redor do mundo, especialmente na Alemanha e no Reino Unido. O trabalho com os estudos de imagens do cérebro está produzindo grandes efeitos, basicamente fazendo os estudos da consciência mais popular, como a mente lúcida é algo digno de ser estudado de uma perspectiva científica. Eu sei que muitos artistas e compositores tem usado os sonhos lúcidos, assim como pintores e estilistas. Pessoalmente eu estou muito interessado nos estudos sobre pesadelos na paralisia do sono que são um tipo de sonho lúcido. Nesses o sonhador se depara com pesadelos muito vívidos e realistas, eles são mais como visões e eles sempre envolvem fantasmas, ancestrais e outras criaturas mitológicas. Sonhadores lúcidos estão aprendendo que ter auto-compaixão nesses momentos pode realmente transformar a experiência em um saudável encontro com anjos e outros espíritos prestativos. É sobre mudar sua expectativa ou sua sintonia/ressonância se vocês quiser.

Perfil da formação de Ryan Hurd aqui.

9) Quantas horas você costuma dormir? Você acha que qualidade do sono é importante pra atingir a consciência nos sonhos?

RH) Eu sempre fui bem de sono, dormindo entre 7 ate 9 horas por noite. Mas nesses dias, minha esposa e eu estamos com nosso filho, um bebezinho de 7 meses, então nosso sono não está tão bom! Tenho notado que eu ainda tenho muitos sonhos e sonhos lúcidos também, especialmente nas manhã. Dormir bem é crucial – como a privação de sono pode encurtar sua vida – mas ter uma escala polifásica( em que você dorme em pedaços mais curtos, despertando mais vezes) pode ironicamente induzir sonhos lúcidos. A chave é experimentar, mas que esteja claro da necessidade de dormir bem para ter que atravessar o dia. E tire sonecas! Elas são ótimas para sonhos lúcidos, paralisia do sono e para sentir experiências fora do corpo.

10) Em nome de muitos sonhadores lúcidos e outros visitantes interessados no tema que frequentam o www.sonhoslucidos.com eu quero agradecer por suas respostas e por compartilhar suas experiências. Alguns pensamentos que queira colocar ou sugestões para aqueles que estão tomando conhecimento agora sobre a consciência nos sonhos?

RH) Eu gostaria de dizer que leiam o que puderem sobre o tema, especialmente a noite e que fique claro da importância de manter um Diário de Sonhos para aumentar a capacidade de recordação e finalmente tenha certeza de estar num período da sua vida que possa tentar essas atividades, caso contrário os sonhos lúcidos serão difíceis de induzir. Como escritor em meu livro eletrônico Lucid Immersion Guidebook, muitos podem aprender a ter sonhos lúcidos em menos que um mês se forem observados os pre-requisitos, combinados com apenas algumas técnicas de sonhos lúcidos por vez. E ultimamente, tenha paciência. Nós temos toda nossa vida para sonhar.

Ryan Hurd é um sonhador lúcido muito gente fina. Além de colaborar na divulgação do tema dos Sonhos Lúcidos, possui Mestrado em Estudos da Consciência e Certificado de Estudo dos Sonhos pela Universidade de John F. Kennedy. Também é graduado em Arqueologia . Passou vários anos escavando ruínas na América do Norte, antes de se voltar para as pesquisas dos sonhos e da mente. Também mantém um site sobre a consciência nos sonhos e assuntos relacionados.

Ryan Hurd 

1) Como você se interessou por sonhos lúcidos?


Ryan Hurd: Sou um  sonhador lúcido desde adolescente. Primeiro eu tinha alguns pesadelos e então alguns sonhos sexuais divertidos na época que descobria minha sexualidade.  Foi a época que surgiram os sonhos lúcidos.

2) Quando foi sua primeira grande experiência com sonhos lúcidos  e você poderia nos contar qual foi sua experiência mais marcante?


Ryan Hurd: O primeiro sonho lúcido totalmente mais intenso foi um pesadelo. Um monstro saiu de uma televisão. Eu falei para ele voltar de onde tinha vindo. Muito intenso. Como minha experiência mais marcante, fica difícil dizer. O que me ocorre agora é uma série de sonhos lúcidos quando eu conheci minha avó e outros ancestrais e nós todos ficamos envolvidos numa experiência de amor. Aquilo foi profundo, difícil de descrever, mas foi um sentimento como se eu tivesse mergulhado, por meio das recordações dos meus ancestrais até o começo dos tempos.

É interessante notar como os pesadelos marcam bastante presença na infância dos sonhadores lúcidos.

3) Atualmente você tem usado alguma técnica em especial, como Tholey, MILD, WILD, CAT…? Você tem preferência por algum reality check(teste de realidade)? O que você acha das dicas especiais como usar um Diário… poderia nos dizer algo sobre rotinas ou técnicas especiais?


Ryan Hurd: A técnica mais eficiente pra mim é combinar práticas de sono com exercícios mentais. Por exemplo, despertando no meio da noite e fazendo 15 minutos de meditação ou lendo sobre sonhos lúcidos. Então eu tento voltar a dormir aplicando WILD. Mas em geral eu tenho incorporado práticas lúcidas na minha rotina diária e tem se revelado mais eficiente a longo prazo. A mente tem continuidade do estado desperto para o sonho, então treine sua mente para ficar consciente quando acordado(a)!. Nos Estados Unidos, isto é conhecido como viver lucidamente e todos usam suas próprias praticas de acordo com sua vida e/ou espiritualidade. É algo pessoal.

4) Com que freqüência você tem sonhos lúcidos por semana ou por mês? Normalmente como é sua rotina quando você atinge uma alta freqüência de sonhos lúcidos? Isso acontece quando você tem grandes problemas pessoais pra resolver ou em um período mais pacífico… quem sabe praticando mais exercícios como corrida…?


Ryan Hurd: Existem muitas pessoas que tem mais sonhos lúcidos que eu! Quando eu não estou incubando ou tentando ficar consciente nos sonhos – a maior parte do tempo – eu tenho 2 ou 3 sonhos lúcidos por mês. Eles tendem a vir juntos num intervalo de tempo de 10 dias, em vez de espaçados, acabam vindo tudo junto. Mas pode ser cansativo, especialmente tentando encontrar tempo para escrever todos eles!

Arte de Jeremiah Morelli 
http://www.morjers-art.de/index.htm 

5) Alguns sonhadores lúcidos enviam emails para mim pedindo auxílio porque eles tem experiências ruins algumas vezes. Eu tento explicar como é importante entender a causa dos pesadelos(mesmo nos sonhos lúcidos). Eu sei que você tem boa experiência explorando sombras e o “botão do horror” nos sonhos lúcidos. O que você normalmente sugere?


Ryan Hurd: Primeiro, eu gosto de dizer que pesadelos são parte natural desse trabalho. Eles vem com o território e eles não são uma falha do sonhador. Normalmente essa é a parte mais assustadora para os sonhadores: quando eles percebem que existem forças nos sonhos que além do Eu. Isso é uma coisa boa e um passo importante. Encarar o terror é sobre a edificação da coragem, mas requer algo mais, como cultivar a compaixão. Se você pode enfrentar o que lhe assusta(a coisa em si e para si mesmo), então você conhecerá o sonho em pé de igualdade e essas aparições assustadoras se tornarão menos assutadoras e mais instrutivas.