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Nosso entrevistado que faz uma pesquisa pioneira sobre sonhos lúcidos, Sérgio Arthuro Mota Rolim,  é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2004), com iniciação científica na área de sono, memória e ansiedade. É mestre em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo Escola Paulista de Medicina (2007), trabalhando com a influência dos ritmos biológicos no sono e na memória. Concluiu seu doutorado pela UFRN, tendo como objeto os aspectos sócio-demográficos, cognitivo-comportamentais e neuro-psicológicos do sonho lúcido.

Dr. Sérgio Arthuro Mota Rolim representa o Brasil, na área de pesquisa sobre a presença da consciência nos sonhos.

1)Como os sonhos lúcidos poderiam auxiliar no estudo e/ou tratamento de alguns tipos de psicose? Que relação existe entre esse tipo de transtorno e a consciência nos sonhos?

Sérgio: Durante o sonho, o cérebro gera imagens e sons que não são decorrentes da estimulação vinda do ambiente (ao contrário do que acontece quando estamos acordados), o que é bastante semelhante as alucinações visuais e auditivas dos pacientes esquizofrênicos. Além disso, nossa capacidade de julgamento racional durante os sonhos está bastante diminuída (com a exceção dos sonhos lúcidos), pois acreditamos que as coisas bizarras que aparecem nos sonhos estão acontecendo de verdade, o que é bastante parecido com os delírios presentes na esquizofrenia. Dessa forma, vários trabalhos têm demonstrado que o sonho é um excelente modelo para o estudo da esquizofrenia. Assim, o estudo dos sonhos (lúcidos ou não) pode também nos ajudar a compreender melhor a psicose.

Com relação ao tratamento em si, ainda estamos apenas engatinhando… No entanto, eu e uma brilhante estudante de medicina que colabora comigo – Adara Resende – levantamos a hipótese de que seria possível que o sonho lúcido pudesse diminuir os delírios psicóticos durante uma crise. Isso aconteceria porque se o sujeito aprender a ficar lúcido no sonho, ele vai ser capaz de emitir um julgamento racional sobre a situação em que se encontra, o que poderia também acontecer enquanto o mesmo estivesse acordado tendo uma crise, ou seja, ele aprenderia a controlar suas alucinações e delírios, como acontece no filme “Uma mente brilhante”. No entanto, por enquanto, podemos apenas especular sobre essa possibilidade do sonho lúcido diminuir também os delírios, já que ainda ninguém testou experimentalmente essa hipótese.

Adara Cabral Resende é estudante de medicina na UFRN e de iniciação cientifica no Instituto do Cérebro, com pesquisa em andamento sobre sonhos lúcidos.

2) Uma perspectiva importante para o uso dos sonhos lúcidos é o tratamento de pessoas com pesadelos recorrentes, pessoas com depressão ou que passaram por algum trauma… pelo seu estudo que alternativas poderiam ser aplicadas, uma vez que o uso do sonho lúcido estivesse consolidado? 

Sérgio: Acreditamos que estando lúcido num pesadelo, o sujeito pode tentar 3 coisas:

1 modificar o sonho = com controle sobre o conteúdo onírico, seria possível tentar transformar o pesadelo num sonho neutro ou até bom.

2 não ter medo do pesadelo = estando lúcido, o sonhador pode perceber que as ameaças que acontecem durante o pesadelo não trazem um perigo físico real.

3 acordar = é possível também acordar durante o pesadelo para acabar com o mesmo, apesar de que alguns autores acreditam que o ideal seria tentar compreender porque o pesadelo está acontecendo daquela forma, até para evitar ter outros.

3) Os sonhos lúcidos podem ser prejudiciais de alguma maneira?

Sérgio: Até agora nada leva a crer que o sonho lúcido em si possa ser prejudicial. No entanto, algumas pessoas não gostam de ter sonhos lúcidos. Na verdade, o que acontece com essas pessoas (até agora eu tive oportunidade de conversar com duas delas) é que elas ficam lúcidas num pesadelo, daí tentam acordar mas não conseguem, como se ficassem presas no sonho. É comum também a relação do sonho lúcido com a paralisia do sono, que é uma das piores sensações que podemos experimentar, pois acordamos e não conseguimos nos mexer.

4) É possível que sonhos conscientes possam contribuir para o aprimoramento de habilidades que envolvam coordenação motora? 
 
Sérgio:  Estudos mostram que simulações mentais de habilidades motoras podem aumentar o desempenho real em tarefas comportamentais: a imaginação repetida de contração muscular aumenta a força muscular propriamente dita, e além disso, simulações mentais melhoram a aprendizagem das habilidades motoras e o desempenho esportivo.          Curiosamente, as habilidades motoras podem ser adquiridas na ausência de um processo de aprendizagem plenamente consciente. Estas observações sugerem que ser capaz de realizar movimentos imaginários durante o sonho lúcido poderia influenciar as habilidades motoras reais durante o estado acordado. Desta forma, os pacientes com deficiência física poderiam praticar tarefas motoras durante o sonho lúcido e avaliar se este “ensaio onírico” diminui os seus sintomas motores. Além disso, o treinamento motor durante o sonho lúcido também pode ser utilizado por indivíduos normais para melhorar suas habilidades físicas.
    Cientistas alemães com quem estamos colaborando fizeram um experimento em que treinavam um grupo de pessoas a jogar uma moeda para dentro de um copo a uma certa distância. Os pesquisadores observaram que aquelas pessoas que treinavam novamente jogar uma moeda num copo durante o sonho lúcido tinham um desempenho real melhor no dia seguinte, ao contrário das pessoas que não treinaram isso no sonho. Esse tipo de pesquisa ainda está na sua fase inicial, mas indica a possibilidade de pessoas comuns ou atletas obtenham uma performance melhorada com um treinamento onírico extra.
5) Seu estudo também envolveu uma análise neurofisiológica desse estado mental. O que mais lhe chamou atenção nesse sentido? 
Sérgio: Nossos resultados preliminares (ainda não publicados), com a análise matemática e estatística do sinal do eletroencefalograma em 5 sujeitos que tiveram sonho lúcido e que conseguiram fazer os movimentos pré-combinados com os olhos, indicam que o sonho lúcido é um estado de transição do sono REM para a vigília, ou seja, apesar de o sonho lúcido ser um sonho, o cérebro está bem próximo de despertar. Quando estamos acordados e de olhos fechados, nosso cérebro entra no estado de sincronização global numa oscilação próxima a 10 ciclos por segundo (ou 10Hz) que é o chamado ritmo alfa, e que está muito associado a meditação. Durante o sonho normal, a potência desse ritmo é muito baixa (numa escala de 0-10 seria = 1).
   Quando o indivíduo está em sonho lúcido, a potência do ritmo alfa sobre para 5, e quando ele acorda vai para 10. Assim, o sonho lúcido seria um estado intermediário entre o sono REM e a vigília. Isso explica porque para a maioria das pessoas o sonho lúcido dura muito pouco (como observamos no questionário que aplicamos pela internet), pois elas acordam logo depois de se darem conta que estavam sonhando. Entretanto, para algumas pessoas essa transição se dá de forma mais gradual e prolongada, aumentando o tempo de duração do sonho lúcido; mas ainda não sabemos porque isso acontece. No questionário que aplicamos, o fator relatado que mais facilitou a ocorrência de sonho lúcido foi dormir sem hora para acordar, o que aumenta enormemente a quantidade de sono REM, pois essa é a fase do sono em que sonhamos, e que acontece principalmente nas últimas horas do sono.
      Observamos também que muitas pessoas relacionam o sonho lúcido com o estresse, que aumenta a quantidade de despertares, fortalecendo a ideia que o sonho lucido é um estado intermediário (ou fase de transição) entre o sono REM e a vigília.
Essa hipótese do sonho lúcido como estado de transição entre o sono REM e a vigília explicaria muito bem os sonhos que já começam lúcidos (como descrito na técnica WILD desenvolvida por Laberge) ou os sonhos que ficam lúcidos só no finalzinho, quando a pessoa está próxima de acordar. No entanto, é possível também ficar lúcido durante o sonho (no meio do sonho por exemplo), principalmente quando nos deparamos com um “sinal de sonho”, que seria algo muito bizarro que só pode acontecer nos sonhos, como a habilidade de voar, ou encontrar alguém que já morreu. Em um dos sujeitos que investigamos, observamos uma ativação na região frontal do cérebro durante o sonho lúcido. Dessa forma, esses resultados sugerem que o sonho lúcido também seria decorrente de uma ativação nessa região. Vários trabalhos na literatura demostram que essa região está relacionada com a auto-consciência e a formação da imagem corporal, logo faz sentido que a mesma esteja ativada durante o sonho lúcido, que é caracterizado pela consciência de estar sonhando durante o sonho.

6)A partir de onde
chegou, que novas perspectivas de estudo mais lhe fascinam ou novas hipóteses
com as quais gostaria de se aprofundar?


   Sérgio:  Gostaria de no pós-doutorado
testar se realmente o sonho lúcido é um estado de transição entre o sono REM e
o estado acordado. O experimento seria dar um estímulo sonoro (que pode ser uma
música por exemplo) durante o sono REM. Esse estímulo sonoro seria inversamente
modulado pela potência da frequência alfa, ou seja, começo com um volume bem
baixo e vou aumento com o tempo até que o indivíduo vai acordando e a potência
do ritmo alfa vai aumentando também. Quando isso acontecer, eu diminuo o volume
do som o que vai fazer com que o sujeito volte a dormir. Daí novamente eu
aumento o volume e assim sucessivamente, como o objetivo de deixar o sonhador o
mais tempo possível na transição entre o sono REM e a vigília. Se o sonho
lúcido acontecer realmente nessa transição, esperamos que dessa forma
consigamos induzir mais sonhos lúcidos.

Será possível trabalhar com estímulos sonoros, controlando gradativamente sua intensidade e incorporando ele nos sonhos e na imersão da consciência nesse estado mental? Alguém aí lembra de um paralelo no filme da imagem? Uau!
Outra forma de induzir o sonho
lúcido seria através de estimulação magnética transcraniana (EMT). A EMT como o nome
diz, consiste em estimular áreas específicas do cérebro com pulsos de campo
magnético sobre o couro cabeludo, ou seja, de forma não invasiva. Em um
dos sujeitos que investigamos, observamos uma ativação na região frontal do
cérebro durante o sonho lúcido. Dessa forma, esses resultados sugerem que o
sonho lúcido também seria decorrente de uma ativação nessa região. Vários
trabalhos na literatura demostram que essa região está relacionada com a
auto-consciência e a formação da imagem corporal, logo faz sentido que a mesma
esteja ativada durante o sonho lúcido, que é caracterizado pela consciência de
estar sonhando durante o sonho. Como alguns trabalhos (inclusive o meu)
observaram que o sonho lúcido está relacionado com a região frontal do cérebro,
é possível que a estimulação dessa região durante o sono REM desencadeie um sonho
lúcido.

Gostaria também de investir em técnicas para
registrar com mais detalhes as áreas cerebrais mais relacionadas com o sonho
lúcido, como a Ressonância Magnética Funcional. A técnica de registro da
atividade do cérebro por RMF consiste em medir as pequenas variações no fluxo
sanguíneo em áreas cerebrais que estão sendo preferencialmente recrutadas por
tipos específicos de tarefas. Quando mexemos a mão (ou pensamos em palavras) há
um aumento do aporte de sangue para as populações neuronais mais relacionadas
com o processamento desses tipos de tarefas, sendo esse sinal (grosseiramente
falando) o que a RMF consegue medir. Poucos laboratórios hoje no mundo estão
fazendo esse tipo de pesquisa, sendo um deles no Instituto Max Planck de
Munique (Alemanha), onde dei palestra no ano passado sobre o meu trabalho, na
tentativa de conseguir uma bolsa de pós-doutorado.

Continuando para a parte final da entrevista com Ryan Hurd, mais 5 perguntas relacionadas com a diferença entre consciência e controle dos sonhos, pesquisas do mundo científico, visão pessoal e experimentos, perspectivas e suas orientações.

Ryan Hurd além da formação de arqueólogo, sonhador lúcido com mestrado e certificação de estudos sobre a consciência pela universidade  de  John F. Kennedy, também é escritor e pesquisador na área.



6) Com relação a controle de sonhos x consciência? Alguns experientes sonhadores lúcidos defendem que existe mais lucidez se existir mais controle… como se o nível de consciência ou lucidez pudesse ser mostrado pelo nível de controle.

Ryan Hurd(RH): Para mim e muitos que usam os sonhos lúcidos como uma prática espiritual, não se trata de controle, mas  em vez disso de uma justa e equilibrada relação com o sonho. Dar e receber, questões e respostas. Controle de sonhos(com isso eu quero dizer manipulação de objetos, transformação e direcionamento de objetos e personagens dos sonhos) isso realmente uma habilidade separada de ser auto-consciente. Eles podem vir juntos é claro, isto é como os sonhos lúcidos vem demonstrando em laboratórios. Mas não é a única maneira de ficar consciente. Ultimamente eu diria que fazer o que você quiser, quando você quiser com quem você quiser soa como uma criança, prestes a ter um ataque gritando – o que não é muito lúcido.

Livro do Ryan sobre Alucinações Hipnagógicas & Visitantes da Noite.

7) Existem experimentos bem excitantes para se fazer nos sonhos lúcidos. Tentar aprimorar habilidades motoras, talvez criar uma melodia, autodesenvolvimento, uma bela pintura, o prazer do sexo, explorar níveis de consciência, memórias… poderia nos dizer algum experimento interessante que você realizou?

RH) Todas essas atividades são saudáveis e caminhos excitantes dos sonhos lúcidos. Eu diria pra seguir seu instinto no sonho, mais do que tentar realizar tarefas que você planejou no estado desperto – porque o nosso sonho é um diferente modo de aprender e pode acessar memórias e realidades que a mente acordada normalmente não tem acesso. Para mim mesmo, uma dos experimentos mais interessantes foi num que eu estava derretendo através de um muro para o chão num sonho, entrando num vazio de escuridão e de lá meditando com desapego até o sonho se reconstruir a minha volta. Foi fascinante observar que cena de sonho viria a seguir e especialmente a forma e natureza do meu próprio corpo de sonho nessas cenas. Em muitos deles, eu emergia voando sobre florestas e rios. Isso foi emocionante. Em outros sonhos eu surgi como uma criança, em uma cena de sonho oriunda da minha própria infância. Esses foram sonhos iluminados que trouxeram oportunidades de interagir com memórias antigas de um passado esquecido.

8) Muitos pesquisadores ao redor do mundo estão fazendo estudos fascinantes. Aqui no Brasil, por exemplo nós temos nomes como Sidarta Ribeiro e Sergio Rolim. Daniel Erlacher e outros pesquisadores fazem progressos, estabelecendo relações entre o treinamento e desenvolvimento de habilidades motoras com os sonhos lúcidos. O que você pensa sobre o(s) próximo(s) mais promissor(es) avanço(s)? Algo como uma superconsciência? Novos mestres como Salvador Dali… ou novos arqueiros como Robin Hood?!

RH) A pesquisa sobre sonho lúcido está realmente decolando agora ao redor do mundo, especialmente na Alemanha e no Reino Unido. O trabalho com os estudos de imagens do cérebro está produzindo grandes efeitos, basicamente fazendo os estudos da consciência mais popular, como a mente lúcida é algo digno de ser estudado de uma perspectiva científica. Eu sei que muitos artistas e compositores tem usado os sonhos lúcidos, assim como pintores e estilistas. Pessoalmente eu estou muito interessado nos estudos sobre pesadelos na paralisia do sono que são um tipo de sonho lúcido. Nesses o sonhador se depara com pesadelos muito vívidos e realistas, eles são mais como visões e eles sempre envolvem fantasmas, ancestrais e outras criaturas mitológicas. Sonhadores lúcidos estão aprendendo que ter auto-compaixão nesses momentos pode realmente transformar a experiência em um saudável encontro com anjos e outros espíritos prestativos. É sobre mudar sua expectativa ou sua sintonia/ressonância se vocês quiser.

Perfil da formação de Ryan Hurd aqui.

9) Quantas horas você costuma dormir? Você acha que qualidade do sono é importante pra atingir a consciência nos sonhos?

RH) Eu sempre fui bem de sono, dormindo entre 7 ate 9 horas por noite. Mas nesses dias, minha esposa e eu estamos com nosso filho, um bebezinho de 7 meses, então nosso sono não está tão bom! Tenho notado que eu ainda tenho muitos sonhos e sonhos lúcidos também, especialmente nas manhã. Dormir bem é crucial – como a privação de sono pode encurtar sua vida – mas ter uma escala polifásica( em que você dorme em pedaços mais curtos, despertando mais vezes) pode ironicamente induzir sonhos lúcidos. A chave é experimentar, mas que esteja claro da necessidade de dormir bem para ter que atravessar o dia. E tire sonecas! Elas são ótimas para sonhos lúcidos, paralisia do sono e para sentir experiências fora do corpo.

10) Em nome de muitos sonhadores lúcidos e outros visitantes interessados no tema que frequentam o www.sonhoslucidos.com eu quero agradecer por suas respostas e por compartilhar suas experiências. Alguns pensamentos que queira colocar ou sugestões para aqueles que estão tomando conhecimento agora sobre a consciência nos sonhos?

RH) Eu gostaria de dizer que leiam o que puderem sobre o tema, especialmente a noite e que fique claro da importância de manter um Diário de Sonhos para aumentar a capacidade de recordação e finalmente tenha certeza de estar num período da sua vida que possa tentar essas atividades, caso contrário os sonhos lúcidos serão difíceis de induzir. Como escritor em meu livro eletrônico Lucid Immersion Guidebook, muitos podem aprender a ter sonhos lúcidos em menos que um mês se forem observados os pre-requisitos, combinados com apenas algumas técnicas de sonhos lúcidos por vez. E ultimamente, tenha paciência. Nós temos toda nossa vida para sonhar.

      Existem pesquisas fascinantes sendo realizadas em algumas universidades e institutos especializados. Aqui mesmo no Brasil, Sidarta Ribeiro, Sérgio Rolim e Bruno Grego, são protagonistas em estudos na área, pela UFRN. Suas pesquisas avançam desbravando sobre as instigantes características desse estado mental. As áreas do cérebro que estão envolvidas, a presença da consciência e a grande intensidade  das experiências visuais…

 
     Experimentos realizados pela Universidade de Mainz, trazem fantásticos resultados, nos quais, pela primeira vez, sonhadores lúcidos estão conseguindo responder a comunicações iniciadas pelos pesquisadores. Trata-se da tese de doutorado de Stelen J.(2006). Através de estímulos sonoros específicos, os sonhadores lúcidos foram capazes de responder aos estímulos, utilizando-se de movimentos dos olhos.

     Pesquisas realizadas por Dane J. ainda na década de 80, foram capazes de demonstrar que os sonhos lúcidos não acontecem apenas nas fases REM do sono.

     Apenas controlar o sonho é só a lasca da ponta do iceberg. A grande conquista está em conseguirmos desenvolver a consciência no estado mental dos sonhos. É aí que as atuais grandes pesquisas caminham. Tanto as grandes pesquisas, como muitos onironautas ao redor do mundo, possivelmente… em casa!…

     Assim como sonhadores lúcidos em laboratórios do sono, estamos conseguindo acessar nosso cérebro num estado diferente da vigília. Quando estamos acordados, ele funciona de uma maneira, porém enquanto sonhamos, podemos vislumbrar situações que não acontecem no estado desperto. Nosso pensamento lógico abre terreno para um estado mental criativo sem paralelos… e conexões diferentes, muito provavelmente:

     “Os sonhos são fontes de grandes descobertas ou soluções para problemas científicos, bem como criações artísticas magistrais: Elias Howe com a revolução na indústria têxtil, Mendelev com a tabela periódica, Kekulé com a cadeia de benzeno, Mary Shelley com Frankenstein, Paul McCartney com Yesterday… o sonho que salvou o filósofo Russell  de cometer suicídio, os três sonhos numa noite de Descartes que impactaram por séculos no pensamento ocidental!… Que frutos podemos almejar ao obtermos livre acesso, num estado tão poderoso da nossa mente? A própria consciência pode ser alvo de intensos estudos.”




     Resultados estimulantes, surgem de pesquisas referentes ao aprimoramento das habilidades em atividades que envolvem coordenação motora. Existe também uma linha de pesquisa, explorando possível relação dos sonhos lúcidos, para com o auxílio no tratamento de algumas psicoses, como a esquizofrenia. Questiono-me frente aos possíveis efeitos de sonhos lúcidos,  envolvendo grande recompensa e prazer… com relação a alguma possível contribuição no tratamento de doenças relacionadas ao eixo “psico-neuro-imuno-endócrino”.

Fontes:

https://www.sonhoslucidos.com/2011/11/o-que-sao-sonhos-lucidos-uma-nova.html

http://www.lucidologia.pl/ 

http://archiv.ub.uni-heidelberg.de/ojs/index.php/IJoDR/article/view/20

Strelen J (2006) Acoustic evoked potentials in lucid dreaming (in German). Ph. D. thesis, University of Mainz

Uma vez atingido o objetivo de ter um sonho lúcido, um dos problemas mais recorrentes passa a ser: como ter mais sonhos lúcidos? Nesse sentido, aqui estarão reunidos os fatores mais determinantes para aumentar a frequência da lucidez nos sonhos.

Fatores determinantes

Os fatores determinantes para ter lucidez nos sonhos já foram debatidos num vídeo do Canal Sonhos Lúcidos. Mas sempre é bom relembrar: diário de sonhos, usar uma técnica e a motivação ou propósito.

A princípio esses requisitos defendidos por Stephen LaBerge, devem compor a rotina diária de qualquer candidato a manter frequência boa de sonhos lúcidos. Além disso, quero ressaltar a importância dada pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, referente ao despertar mais tardio ou aquela qualidade do sono que te possibilite possuir uma boa qualidade de sono.

Como ter mais sonhos lúcidos

De acordo com o neurocientista brasileiro, em seu livro Oráculo Probabilístico:

1 – Diário de Sonhos; assim sendo, crie esse hábito e o mantenha religiosamente.

2 – Reality Check durante o dia; pergunte-se “Será que estou sonhando?” Desse modo, deve-se aproveitar e olhar para mão, servindo como um bom teste de realidade.

3 – Ter boa qualidade de sono; nesse sentido é crucial conseguir chegar até as últimas fases REM do sono ou as “fases REM tardias”. Pois é nelas que nosso cérebro e mente estarão revigorados, abastecidos de toda carga necessária de neurotransmissores.

Fatores determinantes para ter mais sonhos lúcidos: diário de sonhos, bom sono, uma técnica, motivação.

Conclusão

Como resultado, a reunião dos requisitos sugeridos pelo pioneiro nas pesquisas sobre sonhos lúcidos, Stephen LaBerge, somadas ao fatores elencados por Ribeiro, certamente podem nos beneficiar com um aumento nas chances de ficar consciente nos sonhos. Por fim, o grau de eficiência das técnicas de indução sempre deve ser levado em consideração, como é o caso de técnicas como MILD, WILD, DEILD, FILD, THOLEY, Incubação, entre outras. Assim também como é o caso da técnica Mix, pesquisada por Denholm J.Aspy, pela universidade de Adelaide.

Referências Bibliográficas

1 – Reality Testing and the Mnemonic Induction of Lucid Dreams: Findings From the National Australian Lucid Dream Induction Study (2017) American Psychological Association 2017, Vol. 27, No. 3, 206–231 1053-0797/17/$12.00 http://dx.doi.org/10.1037/drm0000059.

2 – LABERGE, Stephen. Sonhos Lúcidos. 1985 pg. 08   Ed. Siciliano Livros, Jornais e Revistas Ltda. 1990(esgotada)

2 – RIBEIRO, S. O Oráculo da Noite. A História e a Ciência do Sonho. São Paulo: Companhia das Letras. 2019, p.135-140. 

Será que existe um motivo que justifique a causa dos sonhos lúcidos? Por que temos sonhos lúcidos? Primeiramente é necessário um esforço para entender as causas do sonho em si.De antemão já adianto que existem diversas teorias e hipóteses. A natureza do sonho ainda é um grande desafio.

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Natureza dos sonhos

Uma questão intrigante é bem colocada pelo filósofo Owen J Flanagan, sobre a natureza dos sonhos.Nesse sentido, em seu livro Dream Souls, há diversos trechos que tratam da natureza do sonho e do sonho lúcido. Em especial, seriam eles uma espécie de adaptação evolutiva ou mero acaso da natureza?…

De acordo com Flanagan a hipótese acerca da natureza dos sonhos vai no sentido de um “efeito colateral”, em contrapartida gerado pela atuação do sono e da consciência. Por outro lado, Revonsuo enxerga os sonhos como uma adaptação da evolução humana. Sendo assim, existem algumas das principais teorias que precisam ser citadas:

Sonhos lúcidos possuem raízes na própria explicação sobre a natureza dos sonhos.

Teorias dos sonhos

Teoria da Ativação-Síntese, apresenta o sonho como uma espécie de subproduto das atividades cerebrais, durante o estado do sono.De acordo com os neurocientistas Alan Hobson e Robert McCarley, os criadores dessa teoria, a razão de existência do sonho como um tipo de efeito colateral dessa ativação neural.Sendo assim, nesse modelo, o córtex acabaria construindo o sonho para dar sentido as descargas que recebe.

Sobre a Teoria do Inconsciente, onde os sonhos analisados por Freud possuíam o caráter de manifestação de realização de desejos.Desse modo, desejos ou fantasias, especialmente aquelas não realizadas, tornar-se-iam manifestações através dos sonhos.

A Teoria da Simulação de Perigo, na qual os sonhos serviriam como uma espécie de preparação para enfrentarmos a dura realidade e seus desafios.Assim sendo, nessa teoria criada por Antti Revonsuo – filósofo, neurocientista e psicólogo – estaria melhor compreendido as razões pelas quais ocorrem mais pesadelos, quando estamos mais sujeitos a situações mais difíceis ou ameaçadoras.

No caso dos sonhos lúcidos…

De fato existem diversas outras teorias referentes aos possíveis motivos pelos quais todos sonhamos durante nossas noites de sono e essas são apenas algumas das teses mais defendidas. Todavia com relação aos sonhos lúcidos, as pesquisas apenas começaram…

Por que temos sonhos lúcidos afinal?

Por outro lado Mathew Walker, um neurocientista com vasta experiência no estudo do sono, faz uma sugestão ousada. Assim, para ele é possível que seja uma variação evolutiva da natureza, manifestando-se na nossa espécie. Em conclusão, prossegue afirmando até mesmo algo que seja capaz de propiciar vantagens tão fortes que implicariam em benefícios para algum tipo de seleção natural!…

Por fim Sidarta Ribeiro faz algumas considerações especiais sobre o tema. De acordo com o neurocientista brasileiro, existem elementos já antigos a serem considerados. Como por exemplo se tratar de um tipo de estado mental praticado por tanto tempo por monges tibetanos. Assim como na ioga nidra e no milam, todas as ações e não ações do praticante ocorrem num estado mental de liberdade interna, como no sonho lúcido.

Por que temos sonhos lúcidos ?

Sob o mesmo ponto de vista prossegue Sidarta Ribeiro, argumentando se tratar de um estado mental no qual, o sonho lúcido ocorre, em que as pessoas já estão com seus estoques de neurotransmissores bem recarregados. Nesse meio tempo, passaram-se várias fases REM, o cérebro já pode sonhar mais vigorosamente e está preparado para acordar, e assim, pode ocorrer de acabar despertando para dentro.

Nesse sentido, defende-se o estado do sonho lúcido como um estado dissociado, em que há uma mistura de estados mentais entre o estado de fase REM do sono, com o estado desperto da mente. Como se o corpo ainda estivesse dormindo, ainda sonhando, porém com o nível de consciência equivalente a vigília. Por outro lado, ainda há um debate se é ou não um “estado dissociado“.

Referências Bibliográficas

FLANAGAN, Owen J. Dreaming Souls: Sleep, Dreams, and the Evolution of the Conscious Mind. New York: Oxford University Press, 2000.

LENT, R. Neurociência – Da Mente e do Comportamento. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan. 2008, p.272-277.

RIBEIRO, S. O Oráculo da Noite. A História e a Ciência do Sonho. São Paulo: Companhia das Letras. 2019, p.135-140. 

WALKER. M. Por que nós dormimos. A nova ciência do sono e do sonho. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2018, p.71. 

Os sonhos lúcidos podem nos oferecer benefícios. Os limites disso apenas começaram a ser estudados. Entre os resultados promissores de pesquisas já realizadas e outras possibilidades promissoras, irei tratar no presente texto.

Benefícios dos Sonhos Lúcidos

Desenvolvimento de Habilidades

Em primeiro lugar, os sonhos lúcidos podem servir para melhora de performance em atividades que envolvam habilidades motoras. Foram conduzidas algumas pesquisas com resultados positivos, na Alemanha, boa parte delas por Daniel Erlacher¹. Desde a década de 80 essa tese já vinha sendo defendida pelo pesquisador alemão, Paul Tholey. Esses experimentos evoluíram consideravelmente nas ultimas décadas.

Prazer

Por outro lado, é inegável o caráter lúdico ou do prazer que o sonho lúcido pode proporcionar. Em outras palavras, mesmo para não praticantes de sonhos lúcidos, o prazer fica explícito como sendo uma das primeiras coisas que podem ser oferecidas no sonho. Seja reencontrando uma pessoa querida, realizar atividades sexuais ou desfrutar de cenários e personagens mirabolantes… o limite para isso sempre será a própria imaginação.

Liberdade

Entrementes, a liberdade que pode ser sentida no sonho lúcido, possui uma qualidade sem comparação. Só para ilustrar, quando estamos acordados, vivemos sob um regime de leis e convenções sociais típicas de uma espécie submetida ao convívio social. E de fato, precisamos desse regramento. Porém nos sonhos, especialmente nos sonhos lúcidos, não existirá qualquer tipo de restrição externa. Por conseguinte, o tipo de liberdade que será sentida ou vivenciada não terá comparação alguma. Uma espécie de liberdade absoluta.

Controle de Pesadelos e Autoconhecimento.

Os sonhos lúcidos podem servir para uma introspecção sem paralelo. No momento em que mergulhamos em um sonho, especialmente quando estamos lúcidos, temos a oportunidade de reconhecer elementos que costumam estar escondidos ou invisíveis durante a vigília (estado desperto). De tal sorte que será corriqueiro nos depararmos com personagens e objetos que nos causarão estranheza, alegria, medo, euforia, entre outros sentimentos… invariavelmente certas situações terão causas em nossas próprias razões de ser. Por qual razão essa criatura abominável continua me atormentando nesse ou aquele sonho?! Por que mesmo lúcido, esse tipo de cenário insiste em aparecer??

Em contraste com certos conceitos de sonhos lúcidos que envolvam necessariamente “controle dos sonhos”, defendo a ideia da concepção de sonho lúcido como “consciência no sonho”. Não apenas a consciência, mas a lucidez em elevado grau. Por isso a possibilidade de compreender melhor o que está se passando em nosso interior, afinal durante um sonho lúcido, estamos mais próximos do que nunca, do que realmente está acontecendo em nossas mentes.

Com relação a questão de controle de pesadelos, também defendo a ideia de que o sonho lúcido não deve ser entendido rasamente como controle obsessivo dos sonhos ou mesmo de pesadelos. Os pesadelos podem servir como uma oportunidade para tentar entender o que está se passando conosco.

Criatividade ou Resolução de Problemas

Durante o estado mental dos sonhos, podemos ter acesso a uma maneira diferente de pensar ou lidar com problemas. Existe uma extensa lista de cientistas que obtiveram benefício para seus estudos, por meio dos sonhos, escritores, poetas, músicos, pintores, inventores, entre outros, os quais se utilizaram dos sonhos para ter suas ideias criativas ou chegar a insights poderosos. Por exemplo o caso de Paul McCartney quando acordou com parte da melodia da música Yesterday. É a música mais regravada de todos os tempos! Elias Howe teve a solução para criação de sua máquina de costura de ponto fixo num sonho. Sua invenção causou uma revolução na indústria têxtil. Mary Shelley com a criação de Frankenstein. A cadeia de benzeno de Kekulé, quando sonhou com as cobras… Mendeleiev quando se esforçava para ordenar a tabela periódica e uma infinidade de outros exemplos.

Pesquisas da Mente

Por fim, os sonhos lúcidos estão sendo utilizados para pesquisas multidisciplinares, envolvendo neurocientistas, psicólogos e filósofos da mente. Procurar entender a natureza dos sonhos, sua finalidade, quais regiões do cérebro estão mais ou menos ativadas nesse estado mental… trata-se de um modelo muito precioso que está fornecendo caminhos instigantes para o estudo da mente, dos sonhos e da consciência.

Referencias Bibliográficas:

1 – Schadlich, M. Erlacher, D. (2018). Practicing sports in lucid dreams – characteristics, effects implications. Current Issues in Sport Science, 3:007. doi: 10.15203/CISS_2018.007