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Será que existe um motivo que justifique a causa dos sonhos lúcidos? Por que temos sonhos lúcidos? Primeiramente é necessário um esforço para entender as causas do sonho em si.De antemão já adianto que existem diversas teorias e hipóteses. A natureza do sonho ainda é um grande desafio.

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Natureza dos sonhos

Uma questão intrigante é bem colocada pelo filósofo Owen J Flanagan, sobre a natureza dos sonhos.Nesse sentido, em seu livro Dream Souls, há diversos trechos que tratam da natureza do sonho e do sonho lúcido. Em especial, seriam eles uma espécie de adaptação evolutiva ou mero acaso da natureza?…

De acordo com Flanagan a hipótese acerca da natureza dos sonhos vai no sentido de um “efeito colateral”, em contrapartida gerado pela atuação do sono e da consciência. Por outro lado, Revonsuo enxerga os sonhos como uma adaptação da evolução humana. Sendo assim, existem algumas das principais teorias que precisam ser citadas:

Sonhos lúcidos possuem raízes na própria explicação sobre a natureza dos sonhos.

Teorias dos sonhos

Teoria da Ativação-Síntese, apresenta o sonho como uma espécie de subproduto das atividades cerebrais, durante o estado do sono.De acordo com os neurocientistas Alan Hobson e Robert McCarley, os criadores dessa teoria, a razão de existência do sonho como um tipo de efeito colateral dessa ativação neural.Sendo assim, nesse modelo, o córtex acabaria construindo o sonho para dar sentido as descargas que recebe.

Sobre a Teoria do Inconsciente, onde os sonhos analisados por Freud possuíam o caráter de manifestação de realização de desejos.Desse modo, desejos ou fantasias, especialmente aquelas não realizadas, tornar-se-iam manifestações através dos sonhos.

A Teoria da Simulação de Perigo, na qual os sonhos serviriam como uma espécie de preparação para enfrentarmos a dura realidade e seus desafios.Assim sendo, nessa teoria criada por Antti Revonsuo – filósofo, neurocientista e psicólogo – estaria melhor compreendido as razões pelas quais ocorrem mais pesadelos, quando estamos mais sujeitos a situações mais difíceis ou ameaçadoras.

No caso dos sonhos lúcidos…

De fato existem diversas outras teorias referentes aos possíveis motivos pelos quais todos sonhamos durante nossas noites de sono e essas são apenas algumas das teses mais defendidas. Todavia com relação aos sonhos lúcidos, as pesquisas apenas começaram…

Por que temos sonhos lúcidos afinal?

Por outro lado Mathew Walker, um neurocientista com vasta experiência no estudo do sono, faz uma sugestão ousada. Assim, para ele é possível que seja uma variação evolutiva da natureza, manifestando-se na nossa espécie. Em conclusão, prossegue afirmando até mesmo algo que seja capaz de propiciar vantagens tão fortes que implicariam em benefícios para algum tipo de seleção natural!…

Por fim Sidarta Ribeiro faz algumas considerações especiais sobre o tema. De acordo com o neurocientista brasileiro, existem elementos já antigos a serem considerados. Como por exemplo se tratar de um tipo de estado mental praticado por tanto tempo por monges tibetanos. Assim como na ioga nidra e no milam, todas as ações e não ações do praticante ocorrem num estado mental de liberdade interna, como no sonho lúcido.

Por que temos sonhos lúcidos ?

Sob o mesmo ponto de vista prossegue Sidarta Ribeiro, argumentando se tratar de um estado mental no qual, o sonho lúcido ocorre, em que as pessoas já estão com seus estoques de neurotransmissores bem recarregados. Nesse meio tempo, passaram-se várias fases REM, o cérebro já pode sonhar mais vigorosamente e está preparado para acordar, e assim, pode ocorrer de acabar despertando para dentro.

Nesse sentido, defende-se o estado do sonho lúcido como um estado dissociado, em que há uma mistura de estados mentais entre o estado de fase REM do sono, com o estado desperto da mente. Como se o corpo ainda estivesse dormindo, ainda sonhando, porém com o nível de consciência equivalente a vigília. Por outro lado, ainda há um debate se é ou não um “estado dissociado“.

Referências Bibliográficas

FLANAGAN, Owen J. Dreaming Souls: Sleep, Dreams, and the Evolution of the Conscious Mind. New York: Oxford University Press, 2000.

LENT, R. Neurociência – Da Mente e do Comportamento. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan. 2008, p.272-277.

RIBEIRO, S. O Oráculo da Noite. A História e a Ciência do Sonho. São Paulo: Companhia das Letras. 2019, p.135-140. 

WALKER. M. Por que nós dormimos. A nova ciência do sono e do sonho. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2018, p.71. 

Os sonhos lúcidos podem nos oferecer benefícios. Os limites disso apenas começaram a ser estudados. Entre os resultados promissores de pesquisas já realizadas e outras possibilidades promissoras, irei tratar no presente texto.

Benefícios dos Sonhos Lúcidos

Desenvolvimento de Habilidades

Em primeiro lugar, os sonhos lúcidos podem servir para melhora de performance em atividades que envolvam habilidades motoras. Foram conduzidas algumas pesquisas com resultados positivos, na Alemanha, boa parte delas por Daniel Erlacher¹. Desde a década de 80 essa tese já vinha sendo defendida pelo pesquisador alemão, Paul Tholey. Esses experimentos evoluíram consideravelmente nas ultimas décadas.

Prazer

Por outro lado, é inegável o caráter lúdico ou do prazer que o sonho lúcido pode proporcionar. Em outras palavras, mesmo para não praticantes de sonhos lúcidos, o prazer fica explícito como sendo uma das primeiras coisas que podem ser oferecidas no sonho. Seja reencontrando uma pessoa querida, realizar atividades sexuais ou desfrutar de cenários e personagens mirabolantes… o limite para isso sempre será a própria imaginação.

Liberdade

Entrementes, a liberdade que pode ser sentida no sonho lúcido, possui uma qualidade sem comparação. Só para ilustrar, quando estamos acordados, vivemos sob um regime de leis e convenções sociais típicas de uma espécie submetida ao convívio social. E de fato, precisamos desse regramento. Porém nos sonhos, especialmente nos sonhos lúcidos, não existirá qualquer tipo de restrição externa. Por conseguinte, o tipo de liberdade que será sentida ou vivenciada não terá comparação alguma. Uma espécie de liberdade absoluta.

Controle de Pesadelos e Autoconhecimento.

Os sonhos lúcidos podem servir para uma introspecção sem paralelo. No momento em que mergulhamos em um sonho, especialmente quando estamos lúcidos, temos a oportunidade de reconhecer elementos que costumam estar escondidos ou invisíveis durante a vigília (estado desperto). De tal sorte que será corriqueiro nos depararmos com personagens e objetos que nos causarão estranheza, alegria, medo, euforia, entre outros sentimentos… invariavelmente certas situações terão causas em nossas próprias razões de ser. Por qual razão essa criatura abominável continua me atormentando nesse ou aquele sonho?! Por que mesmo lúcido, esse tipo de cenário insiste em aparecer??

Em contraste com certos conceitos de sonhos lúcidos que envolvam necessariamente “controle dos sonhos”, defendo a ideia da concepção de sonho lúcido como “consciência no sonho”. Não apenas a consciência, mas a lucidez em elevado grau. Por isso a possibilidade de compreender melhor o que está se passando em nosso interior, afinal durante um sonho lúcido, estamos mais próximos do que nunca, do que realmente está acontecendo em nossas mentes.

Com relação a questão de controle de pesadelos, também defendo a ideia de que o sonho lúcido não deve ser entendido rasamente como controle obsessivo dos sonhos ou mesmo de pesadelos. Os pesadelos podem servir como uma oportunidade para tentar entender o que está se passando conosco.

Criatividade ou Resolução de Problemas

Durante o estado mental dos sonhos, podemos ter acesso a uma maneira diferente de pensar ou lidar com problemas. Existe uma extensa lista de cientistas que obtiveram benefício para seus estudos, por meio dos sonhos, escritores, poetas, músicos, pintores, inventores, entre outros, os quais se utilizaram dos sonhos para ter suas ideias criativas ou chegar a insights poderosos. Por exemplo o caso de Paul McCartney quando acordou com parte da melodia da música Yesterday. É a música mais regravada de todos os tempos! Elias Howe teve a solução para criação de sua máquina de costura de ponto fixo num sonho. Sua invenção causou uma revolução na indústria têxtil. Mary Shelley com a criação de Frankenstein. A cadeia de benzeno de Kekulé, quando sonhou com as cobras… Mendeleiev quando se esforçava para ordenar a tabela periódica e uma infinidade de outros exemplos.

Pesquisas da Mente

Por fim, os sonhos lúcidos estão sendo utilizados para pesquisas multidisciplinares, envolvendo neurocientistas, psicólogos e filósofos da mente. Procurar entender a natureza dos sonhos, sua finalidade, quais regiões do cérebro estão mais ou menos ativadas nesse estado mental… trata-se de um modelo muito precioso que está fornecendo caminhos instigantes para o estudo da mente, dos sonhos e da consciência.

Referencias Bibliográficas:

1 – Schadlich, M. Erlacher, D. (2018). Practicing sports in lucid dreams – characteristics, effects implications. Current Issues in Sport Science, 3:007. doi: 10.15203/CISS_2018.007

     Uma das áreas mais interessantes nas pesquisas sobre sonhos lúcidos, são os estudos que envolvem o aperfeiçoamento da performance em atividades físicas. Esse tema começou a ser tratado durante a década de 80, pelo psicólogo alemão Paul Tholey ¹. Seu interesse pelos tema dos sonhos e pela ciência desportiva não demoraram a se cruzar. Tholey de fato estava convencido de que era possível desenvolver habilidades motoras, através de treinamentos durante os sonhos lúcidos. Até hoje sua técnica de indução de sonhos lúcidos, é uma das mais praticadas ( ver Técnica de Tholey).

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   Algo bastante curioso sobre essa relação entre as pesquisas com sonhos lúcidos e a ciência desportiva é uma informação de um texto do pesquisador alemão, Daniel Erlacher², referente ao fato de que Paul Tholey era um experiente desportista. Tholey fazia experimentos em seus sonhos lúcidos, com o objetivo de melhorar suas habilidades em práticas como monociclos, skateboards, entre outros…

 

Paul Tholey
Paul Tholey praticando atividades que provavelmente exercitou durante seus sonhos lúcidos. https://www.luciddreamcoaching.com/post/2019/03/31/paul-tholey-practiced-complex-movements-in-lucid-dreams-advised-others-to-do-the-same

  Com o decorrer do tempo, mais pesquisas foram surgindo e as implicações dos resultados sugerem uma relação considerável entre o treinamento nos sonhos lúcidos e a melhora na eficiência de performance.

     Destaca-se, em especial as recentes pesquisas produzidas por Daniel Erlacher, Melanie Schadlich, Stumbrys, Schredl,Vergeer, Roberts, entre outros, relacionadas ao desenvolvimento de performance de atividades físicas, durante o estado mental do sonho lúcido.

    Além da melhora em habilidades que envolvam atividade física, como exercícios ou esportes, também foram verificados, de acordo com Schadlich³, indícios de benefícios como: aumento da flexibilidade, confiança, insights e emoções positivas.  Dentre os relatos selecionados dos atletas, encontra-se a possibilidade de praticar movimentos mais arriscados, a sensação de  experimentar e sentir execuções ainda não praticadas no estado desperto.

  O uso dos sonhos lúcidos, permite uma prática mais agressiva de exercícios como em downhill com bicicleta ou esqui. Descrições dos participantes, direcionam-se para uma experiência de sentir com mais intensidade e detalhes, os movimentos executados. Praticantes de diversas modalidades participaram do estudo (Schadlich, 2018), bem como nado, ginástica, karatê, taekwondo, alpinismo, entre outros…

     As pesquisas sobre os benefícios dos sonhos lúcidos para a prática de atividades físicas prosseguem. O aumento de performance, já foi objeto de publicação por aqui.

 

 

Referências Bibliográficas:

1 – Tholey, P. (1983). Techniques for inducing and manipulating lucid dreams. Perceptual and Motor Skills, 57(1), 79–90. https://doi.org/10.2466/pms.1983.57.1.79

2 – ERLACHER, D. (2018). “Complicated movements should be practiced in dreams” Paul Tholey about sports, lucid dreams and consciousness. International Journal of Dream Research, 11(2), 230-233. https://doi.org/10.11588/ijodr.2018.2.51340

3 – Schadlich, M. Erlacher, D. (2018). Practicing sports in lucid dreams – characteristics, effects implications. Current Issues in Sport Science, 3:007. doi: 10.15203/CISS_2018.007

Encontrar motivos para ter um sonho lúcido pode gerar um debate curioso. Por qual razão as pessoas se interessam em ter sonhos lúcidos? Provavelmente, boa parte, num primeiro momento o faça por curiosidade. Mas uma vez realizada a experiência, é comum desenvolver um fascínio, como se existisse alguma razão em especial para continuar tendo mais sonhos lúcidos.

Desde os tempos da Comunidade de Sonhos Lúcidos do Orkut, ( o qual ultrapassou a marca de 30.000 membros ), bem como relatos em comentários nesse site e no Grupo de Sonhos Lúcidos do Facebook, observei alguns relatos bem interessantes. Nosso Fórum também traz um considerável número de relatos a respeito. Vou discriminar os motivos frequentemente relatados:

1 – Prazer – realizar desejos ocultos

Trata-se muito provavelmente da principal razão pela qual as pessoas se interessam em ficar conscientes em seus sonhos. As possibilidades de obter os mais variados prazeres (incluindo o sexual), sempre acabam seduzindo, sejam aqueles que nunca experimentaram um sonho lúcido ou quem já provou e deseja algo mais. Os prazeres envolvidos na materialização de algo impossível no mundo real, sempre são razões bastante provocantes para buscar essa experiência. Esse talvez seja o principal motivo para ter sonhos lúcidos.

2 – Liberdade – sem regras, sem culpa

Uma das sensações mais embriagantes no sonho lúcido, sentir-se livre, sem quaisquer travas ou convenções sociais, para usufruir da maneira como bem entender de um mundo que é todo seu. Jogo algum, videogame da mais alta tecnologia, jamais sequer chegou próximo de reproduzir a sensação de liberdade que pode ser vivenciada durante um sonho lúcido.  Não é a toa que voar é uma das primeiras ações que as pessoas acabam realizando em seus primeiros sonhos lúcidos.

Além de voar, sempre é possível experimentar façanhas como explorar novos ambientes, como um mar distante, uma paisagem idílica, memórias antigas podem ser revisitadas, pessoas e personagens podem ser trazidos…

3 – Poder – dono de tudo

Quem já sofreu com pesadelos na infância, com alguma frequência desenvolve habilidades de controle dos sonhos muito cedo. Exercer o controle sobre um sonho, por vezes pode nos deixar eufóricos. Trata-se da descoberta de um nova realidade no qual somos pequenos deuses, mas com poderes absolutos… e isso é como ser o dono da sua própria “Matrix”.

Cena do filme Matrix, quando Neo está renascido e com seu estado de consciência alterado dentro da Matrix.

4 – Curiosidade – o melhor simulador

As fronteiras das pesquisas sobre sonhos lúcidos já avançaram para as áreas da neurociência, filosofia da mente, psicologia, neurofilosofia, entre outras. Existem pesquisas no mínimo instigantes, conduzidas por Daniel Erlarcher (fonte abaixo) e vários outros, nas quais os sonhadores lúcidos alcançaram melhora no desempenho em atividades envolvendo habilidades motoras. Como não ficar instigado pelas possibilidades.

Nos sonhos lúcidos podemos também simular experimentos tecnológicos. Experimentar sabores, ir para outros planetas, dimensões, enfim, ir ao encontro do desconhecido ou mesmo daquilo que não seria possível explorar no cotidiano.

5 – Autoconhecimento – imersão em si mesmo

Nos sonhos lúcidos podemos enxergar o espelho de nós mesmos e do que estamos passando. Assim, nossos medos, nossos desejos, nossas preocupações são expostas diretamente ou em forma de metáforas através do cenário (e dos personagens) que compõe o sonho.

Ao analisar o sonho, podemos conhecer muito de nós mesmos. Trata-se de poderosa ferramenta para análise de pacientes na psicologia, psiquiatria e psicanálise. Como defendia Freud: “o sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”.

Importante destacar que o sonho lúcido é uma porta para experimentar um estado alterado de consciência saudável. Uma oportunidade preciosa de vivenciar experiências sem quaisquer efeitos colaterais. Pelo menos considerando o uso através dos séculos, por monges tibetanos, sem jamais ficar registrado algum tipo de efeito colateral danoso ao praticante.

Na imagem abaixo uma antiga enquete de 31/08/2011, no qual 311 sonhadores lúcidos responderam o que mais lhes atraia nos sonhos lúcidos. Destaque para a “Sensação de Liberdade” com a maioria dos votos:

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Dica do dia: especial para quem se interessa pelo tema de significado dos sonhos é o site https://www.segredosdosonho.com.br/

Referências:

  1. http://www.mendeley.com/catalog/practicing-motor-task-lucid-dream-enhances-subsequent-performance-pilot-study-19/
  2. http://sonhoslucidos.forumeiros.com/t436-qual-e-a-melhor-sensacao-para-voce-nos-sonhos
  3. https://sonhoslucidos.com/sonhoslucidos/o-que-mais-lhe-fascina-nos-sonhos/

Referências Bibliográficas.

Dresler, M., et al. (2011) “Dreamed Movement Elicits Activation in the Sensorimotor Cortex.” Current Biology 21: 1–5.

Dresler, M. et al. (2013) “Neural Correlates of Dream Lucidity Obtained from Contrasting Lucid Versus Non-lucid REM Sleep: A Combined EEG/fMRI Study.” Sleep 35: 1017–1020.

Erlacher, D. and Chapin, H. (2010) “Lucid Dreaming: Neural Virtual Reality as a Mechanism for Performance Enhancement.” International Journal of Dream Research 3: 7–10.

Erlacher, D. and Schredl, M. (2008) “Cardiovascular Responses to Dreamed Physical Exercise During REM Lucid Dreaming.” Dreaming 18: 112–121.

As pesquisas sobre o cérebro humano nas últimas décadas trouxeram dados, capazes de causar otimismo entre seus estudiosos. A exemplo de Matthew Walker ¹, neurocientista, em seu livro recentemente publicado no Brasil, com o título Por que nós dormimos – a nova ciência do sono e do sonho:

” É possível que sonhadores lúcidos representem a próxima iteração na evolução de Homo sapiens”. Será que no futuro esses indivíduos serão preferencialmente selecionados em parte com base nessa habilidade onírica incomum – uma habilidade que pode lhes permitir direcionar o holofote criativo da resolução de problemas no sonho para os desafios despertos enfrentados por eles mesmos ou pela espécie humana e tirar proveito de seu poder de maneira mais deliberada?”

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Recentes publicações de neurocientistas renomados, parecem demonstrar certo otimismo com as possibilidades futuras acerca dos sonhos lúcidos.

Trata-se de uma afirmação ousada e dotada de muito otimismo. Mas que caminha bem acompanhada. Em seu livro, O Oráculo da Noite, também com lançamento recente no Brasil, o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro ² faz suas colocações sobre o tema:

” O desbravamento da lucidez onírica abrirá novos caminhos para a criatividade, a invenção e a descoberta humana, com riquíssimas possibilidades ainda por explorar.”

De fato existem pesquisas animadoras, com relação a possíveis benefícios dos sonhos lúcidos. Algumas delas já foram objeto de atenção nesse site. Tratam-se de resultados sobre sonhadores lúcidos que foram capazes de realizar treinamento envolvendo habilidades motoras durante os seus sonhos. O aumento da performance ficou evidenciado nesses primeiros estudos e certamente novas pesquisas serão realizadas.

Particularmente sempre fui fascinado com a hipótese dos sonhos lúcidos contribuírem para compreensão da consciência, processos criativos, memórias do inconsciente e resolução de problemas. Vários pesquisadores, filósofos da mente, como Revonsuo, Metzinger, Evan Thompson, Jenifer Windt, entre outros (incluídos neurocientistas, e psicólogos ), voltam suas atenções e estudos para esse estado alterado de consciência. Trata-se de uma área de estudo promissora para a compreensão do próprio sonho em si e para avanços nas pesquisas sobre a consciência.

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Image by Stefan Keller from Pixabay

Dica no livro O Oráculo da Noite para ter sonhos lúcidos:

” O primeiro passo é retomar o sonhário (Diário de Sonhos). Além disso é importante aplicar técnicas capazes de elevar a percepção do estado onírico, como o hábito de indagar-se frequentemente, no transcorrer do dia: Será que estou sonhando? Essa pergunta pode acompanhar a visão de um objeto específico, como a própria mão.

Um breve período de autossugestão antes de dormir também facilita o aprendizado do sonho lúcido através da mentalização da experiencia que se quer incubar. É ainda mais útil despertar de madrugada para e realizar a autossugestão na iminência dos últimos episódios de sono REM da noite.”

Observação: a dica do Sidarta Ribeiro está perfeitamente de acordo com as técnicas de indução que divulgamos no site. Acrescentamos apenas que esse despertar durante a madrugada seja por volta da 5a ou 6a hora de sono ou por volta de DUAS horas antes do despertar.

Referências Bibliográficas:

1 – WALKER. M. Por que nós dormimos. A nova ciência do sono e do sonho. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2018, p.254.

2 – RIBEIRO, S. O Oráculo da Noite. A História e a Ciência do Sonho. São Paulo: Companhia das Letras. 2019, p.376.

Existe um momento em nosso sono, capaz de nos ludibriar com um realismo inacreditável. Trata-se do que é conhecido como “Falso Despertar”. Acredito que esse tipo de fenômeno, possui um potencial subestimado. Normalmente surge quando estamos próximos de acordar e é capaz de causar um grande impacto em nossas percepções. Nessa situação, acordamos, levantamos da cama, vamos ao banheiro, a cozinha, nos trocamos e vamos para a aula ou para o trabalho… para logo a seguir, percebermos que tudo não passou de um sonho.

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Photo by Kinga Cichewicz on Unsplash

         Levantamos novamente, vamos a cozinha, trocamos de roupa e vamos para a aula ou para trabalho… para logo a seguir, perceber que tudo não passou de um sonho novamente?! E assim… isso pode se repetir numa espécie de looping por diversas vezes…  Descritos pelo filósofo Thomas Metzinger ¹ como “sonhos extremamente realistas”, o Falso Despertar possui a capacidade de reproduzir ou emular a realidade com essa refinada fidelidade.

A dificuldade de saber que está sonhando

Diferente da média dos sonhos comuns, o falso despertar imita a realidade e justamente o ambiente no qual estamos dormindo, dificultando ainda mais a presença da consciência, mesmo para um experiente sonhador lúcido. Afinal, como questionar a própria realidade, dotada desse realismo tão fidedigno?

      O Falso Despertar, de acordo com Stephen LaBerge², ocorre com alguma frequência, após sonhos lúcidos e isso pode trazer a ilusão de que estamos atravessando diferentes níveis de profundidade ou a ideia como no filme Inception – A Origem, de sonhos em camadas (sonho dentro de um sonho). LaBerge, identifica essa crença e que apesar  de  bem apresentada no filme, no qual os personagens são capazes de mergulhar em camadas de sonhos, gradativamente mais e mais profundas, de fato não se traduz em qualquer evidencia científica comprovada.

A importância do falso despertar

   A razão em especial de voltar a esse tema – tratado duas vezes por aqui – provavelmente já tenha ficado evidente, mas devo ressaltar que está em função da possibilidade de explorar a reprodução da realidade do estado desperto com esse nível de fidelidade. Se considerarmos a natureza desse estado mental, capaz de iludir o mais experiente sonhador lúcido, podemos imaginar o quanto esse realismo talvez possa ser útil para futuros experimentos. Seria o caso por exemplo de atividades a serem realizadas nos sonhos, para pesquisas comparativas com o estado desperto. Pesquisas as quais, já acontecem há algumas décadas e sempre foram bem divulgadas nesse site.

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Na imagem, cena da “sala de treinamento”, onde o Morpheus treina Neo, no filme Matrix.

          Russel³ se utilizou do fenômeno dos falsos despertar para argumentar sobre a impossibilidade de provar que não estamos sonhando nesse exato momento:

          “-Pode ser dito que embora ao sonhar eu possa pensar que estou acordado, quando eu acordo eu sei que eu estou acordado. Mas eu não vejo como nós podemos ter tanta certeza; eu tenho sonhado frequentemente que eu acordei; de fato por vezes seguidas, eu sonhei com isso centenas de vezes no curso de um sonho. (…) Eu não acredito que agora eu estou sonhando, mas eu não posso provar que eu não esteja.”(tradução minha).

        Observando os experimentos e pesquisas supra-citadas que estão sendo realizados nas últimas décadas, envolvendo o uso dos sonhos lúcidos para aprimoramento de atividades com coordenação motora, fica bastante interessante pensar como um ambiente mental, como o Falso Despertar, pode proporcionar uma espécie de “Matrix” otimizada. Um lugar com uma ultra-realidade, capaz de rivalizar com o estado desperto e portanto, permitir os mais surpreendentes experimentos, com alto grau de precisão.

Referências Bibliográficas

1- METZINGER T; Windt J. The Philosophy of Dreaming and Self-Consciousness: What Happens to the Experiential Subject during the Dream State?In D. Barret & McNamara (Ed). The new science of dreaming: Volume 3. Cultural and theoretical perspectives, (pp. 61-8). Westport & London: Praeger Perspectives, 2007.

2- Stephen LaBerge – sobre sonhos em camadas (18’30”).

http://daniel.erlacher.de/index.php/Time_required_for_motor_activity_in_lucid_dreams

https://sonhoslucidos.com/sonhoslucidos/ultimas-descobertas-sobre-sonhos/

3 – RUSSEL B. Human Knowledge. Its Scope and Limits. London: George Allen and Unwin LTD. 1948. p. 186.