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Existem diversos caminhos para adentrar em um sonho lúcido. A maioria demanda alguma atenção especial para técnicas de indução, disciplina com boa qualidade do sono e anotações em um Diário de Sonhos. Há alguns caminhos alternativos como o uso de novas tecnologias, máscaras, bandanas, isocronicos e sons binaturais, apps, suplementos e afins.

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Conforme informado no texto anterior – Máscaras para indução de Sonhos Lúcidos – o tema agora tratado será sobre ervas, suplementos e demais substâncias para indução de sonhos lúcidos. Entre as substâncias já tratadas por aqui, destaca-se a eficiência da Galantamina, a qual infelizmente não é vendida no Brasil, exceto com receita médica.

Dentre outras ervas, com potencial para indução de sonhos lúcidos, vale ressaltar a Calea Zacatechichi ou a Erva dos Sonhos e como o próprio nome sugere, é capaz de intensificar as experiências oníricas. Esta erva é vendida na forma de folhas, sementes, concentrado na forma de tintura, entre outros. Por se tratar de uma erva vendida facilmente por sites de compra (inclusive amazom.com), os pesquisadores se debruçaram sobre o tema.

A Calea Zacatechichi ficou conhecida pelo uso dos índios da região do México e América Central, como meio para obter consultas no mundo onírico e como substancia de cura: asma e distúrbios gastrointestinais. Além disso pesquisas indicam efeitos anti-inflamatórios, antibióticos e anticonvulsivos ¹ ².

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Região onde era encontrada a Calea Zacatechichi e os Chontal Maya que também a utilizavam.

De acordo com uma recente pesquisa conduzida por Mossoba³ é possível encontrar diversos efeitos dessa substância e há alguma literatura de pesquisas realizadas em função dessa erva. Mas não apenas benefícios. De acordo com esse estudo, existem riscos com relação a toxidade gerada sobre as células renais.

Entre os efeitos positivos e negativos, destacam-se os resultados positivos em recente pesquisa de 2016 ², na qual se utilizou de uma solução de extrato aquoso da planta. Para o caso de alguém, algum dia for experimentar a Calea Zacatechichi, de acordo com as pesquisas elencadas nesse texto, sugere-se que optem pela solução de extrato aquoso.

Existem algumas combinações/formas do uso da Calea Zacatechichi que estão sendo sugeridas por sonhadores lúcidos e irei detalhar algumas dessas técnicas no próximo texto.

Referências Bibliográficas

1 – Wu H, Fronczek FR, Burandt CL Jr, Zjawiony JK. Antileishmanial Germacranolides from Calea zacatechichi. Planta Med. 2011 May; 77(7):749-53.

2 – Maciej Sałaga, Jakub Fichna, Katarzyna Socała, Dorota Nieoczym, Mateusz Pieróg, Marta Zielińska, Anna Kowalczuk, and Piotr Wlaź Neuropharmacological characterization of the oneirogenic Mexican plant Calea zacatechichi aqueous extract in mice Metab Brain Dis. 2016; 31: 631–641.Published online 2016 Jan 28. doi: 10.1007/s11011-016-9794-1

3 – Evaluation of (Dream Herb,) Calea zacatechichi, for
Nephrotoxicity Using Human Kidney Proximal Tubule Cells (2016) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5040790/

4 – Lenardo M. J., Baltimore D. NF-κB: a pleiotropic mediator of inducible and tissue-specific gene control. Cell. 1989;58(2):227–229. doi: 10.1016/0092-8674(89)90833-7 [PubMed] [CrossRef] []
5 – Sun Z., Andersson R. NF-κB activation and inhibition: a review. Shock. 2002;18(2):99–106. doi: 10.1097/00024382-200208000-00001. [PubMed] [CrossRef] []

   O texto de hoje merece uma atenção bem especial. Trata-se de uma entrevista com o pesquisador brasileiro Alexandre Valença, o qual defende sua tese na área de sonhos lúcidos e com o bônus de um link (disponibilizado pelo entrevistado) para quem quiser colaborar, respondendo ao questionário. Cada pessoa que disponibilizar um tempo para responder, estará dando uma valiosa contribuição para o avanço do nosso tão estimado tema.

   Nosso entrevistado, Alexandre Valença é Psicólogo Clínico, Professor de Psicologia pela Universidade Santa Úrsula e Estácio, Mestre em História da Ciência, das Técnicas e Epistemologia pelo HCTE / UFRJ (2013). Doutorando pelo HCTE/ UFRJ, na linha de pesquisa de Epistemologia – Teorias da Mente, pesquisando as relações entre sono, aprendizagem, memória e processos criativos. Coordenador do Grupo de Reflexão Interdisciplinar Fórum Atenas, fundado em 1998, formado por profissionais e pesquisadores de diversos campos de conhecimento como Filosofia, Psicologia,Engenharia, Medicina, Antropologia e Astronomia,entre outros. O Grupo tem entre seus temas de estudo principais: Consciência,Epistemologia, Inteligência Artificial e Criatividade. Palestrante.

O link com o questionário, para colaborar com a pesquisa:

http://www.hcte.ufrj.br/sonhos-lucidos.htm

“O questionário que está online é uma ferramenta poderosa para o estudo epidemiológico dos sonhos lúcidos (SL) no Brasil”. 

1) Qual a origem do seu interesse pelo tema dos sonhos lúcidos? Quando e de que maneira isso aconteceu?

Bom começo! Gosto dessa questão porque ela remete a uma certa crise que tive ainda no meio do meu mestrado. E esta crise foi fundamental para mudar o tema e o rumo de toda minha pesquisa. A história é longa, então, vou contar a versão “remix”, como costumo dizer. No meio dessa “crise”, insatisfeito com o tema que eu estava desenvolvendo, resolvi participar de um Congresso de Neurociência que aconteceria em Belo Horizonte. Nunca tinha ouvido falar de sonhos lúcidos, até então. Isso devia ser 2011. Lá, entre muitas apresentações de trabalhos e palestras, o Sidarta Ribeiro comentaria o filme “Waking Life” (que recomendo a todos) e, em algum momento, o Sidarta mencionou a expressão “sonhos lúcidos”. Aquela junção de palavras, expressava um paradoxo fascinante – sonho e lucidez – ocorrendo de forma simultânea. Obviamente, não pude deixar de questionar o Sidarta sobre o tema. Daí, depois saímos para umas cervejas, falamos mais sobre sonhos lúcidos e o interesse pelo tema só aumentou.

Quando voltei para o Rio de Janeiro, pesquisei alguns artigos e levei a ideia pro meu orientador, Luis Pinguelli Rosa, que foi bem receptivo ao tema, já que gosta de desafios. O Pinguelli é um dos fundadores da linha de pesquisa que aborda Teorias da Mente e Estudos sobre a Consciência no HCTE/UFRJ, um programa de pós-graduação interdisciplinar, formado por pesquisadores de diversas áreas como Física, Astronomia, História, Engenharia, Matemática, Antropologia, Biologia, entre outros. O Sidarta acabou sendo co-orientador no meu Mestrado.

Assim, começava minha pesquisa sobre os sonhos lúcidos. Vale salientar que minha pesquisa sempre teve uma perspectiva interdisciplinar. No mestrado, o trabalho apontava as relações entre sonhos, aprendizagem, memória e criatividade desde a Antiguidade até a Neurociência contemporânea, passando por Freud e a neurofisiologia do sono. Agora, no doutorado, a pesquisa está mais focada nos sonhos lúcidos, mas sem perder a perspectiva interdisciplinar.

2) Já experimentou um sonho lúcido? Como foram suas experiências? (Caso sim, fique à vontade para relatar – ou não – a primeira e/ou uma bem marcante).

Já experimentei alguns e é uma sensação fantástica. Os mais incríveis foram – sem dúvida- poder experimentar a sensação de voar!  Esse é um dos maiores atrativos dos sonhos lúcidos: poder realizar coisas que – normalmente – não podemos realizar na nossa vida de vigília. Não é à toa que voar está entre os temas favoritos entre os onironautas, no mundo todo, como indicam algumas pesquisas. Mas, a maioria dos meus sonhos lúcidos tem curta duração.

Photo by Darius Bashar on Unsplash

Infelizmente, os sonhos lúcidos são menos frequentes do que nós gostaríamos. E eu, até agora, preferi não me dedicar mais fortemente às técnicas de indução. Aliás, mais à frente, podemos voltar à questão das técnicas de indução, que é um aspecto que vale ser mais investigado.

De toda forma, esse estado híbrido de consciência, onde podemos vivenciar certo controle sobre conteúdos oníricos, é instigante e marca quem já teve essa experiência. Conheço algumas pessoas que tem SL frequentemente e com um bom nível de controle sobre eles. O que fascina nos sonhos é que, quando estamos vivenciando determinadas situações nos sonhos,as emoções são intensas, e os fatos parecem reais (ao menos na grande maioria das vezes). Desta forma, os SL, que possibilitam manipular elementos do sonho, podem ser utilizados como pura diversão também. Como se fosse “mais um ambiente virtual”, onde podemos experimentar coisas que não são possíveis normalmente. Mas, assim como os “games”, precisamos investigar se uma exposição repetida/ frequente pode gerar ou estar correlacionada com algum malefício.

3) Qual o objeto principal da sua tese? Poderia nos contar sobre alguns objetivos e hipóteses levantadas?

Vou tentar explicar tudo numa linguagem bem coloquial, sem “academicismo”, já que o espaço aqui é de divulgação científica. A tese está dividida em duas frentes: uma investigação teórica, de caráter interdisciplinar, capturando dados sobre os processos oníricos desde a Antiguidade, começando na Mesopotâmia – onde temos o registro do que é considerado o primeiro “livro dos sonhos” –  até a Neurociência contemporânea, passando por Freud, Jung, neurofisiologia do sonho, e por relações com aspectos místicos e religiosos como os encontrados no Tibete e no xamanismo, por exemplo. Esse corpo teórico, bastante amplo e interdisciplinar, é fundamental para uma abordagem de um fenômeno complexo como os sonhos lúcidos.

As informações extraídas desse amplo levantamento indicaram alguns caminhos, algumas lacunas e novas questões para as quais não tínhamos respostas evidentes. Aí, entra a segunda frente da pesquisa: o questionário online sobre os sonhos lúcidos para tentar elucidar algumas dessas lacunas. Felizmente, Marlon, tivemos sua grande receptividade para divulgar a pesquisa e o link para o questionário aqui. Esse espaço é fundamental porque seu blog é, sem dúvida, uma referência no tema e para todos onironautas.

Então, um dos objetivos da tese é produzir um amplo painel do onironauta brasileiro. Pretendemos também, identificar  características psico-socio-ambientais-comportamentais que possam estar relacionadas com a ocorrência e frequência dos sonhos lúcidos, por exemplo.  Esses dados, dependendo da amostra, podem ser amplificados e vão dialogar com pesquisas semelhantes que estão ocorrendo em outros países.

Photo by Alex Holyoake on Unsplash

Temos, naturalmente, hipóteses de trabalho, mas… prefiro não mencionar as hipóteses, já que essa informação poderia contaminar de alguma forma as respostas  dos participantes da pesquisa. Contudo, tão logo os resultados estejam consolidados,  prometo divulgar aqui no site.

4) Em uma perspectiva acadêmica, na sua área, como é adentrar nessa seara? Quais as maiores dificuldades enfrentadas para o desenvolvimento dessa pesquisa?

Penso que as pesquisas sobre o tema têm trazido cada dia mais respaldo e interesse sobre os sonhos lúcidos. No campo das pesquisas científicas, os sonhos lúcidos ainda são um tema relativamente recente. Vale lembrar que as primeiras publicações do LaBerge aceitas em revistas científicas são da década de 1980. Além disso, acredito que o interesse pelos SL aumentou, sensivelmente, nos últimos anos. Mas, não percebo nenhum tipo de resistência ou desconfiança quanto ao fenômeno dos sonhos lúcidos, diferentemente do que ocorria até a publicação das pesquisas de LaBerge, que tornaram-se uma referência. Um quadro bem diferente das décadas anteriores, quando o fenômeno dos SL era visto com desconfiança, como algo contraditório por definição e, por isso, inexistente ou bastante duvidoso. Mas, após os experimentos realizados em laboratório, com alto nível de controle de variáveis e observação dos correlatos neurofisiológicos, os sonhos lúcidos são uma“realidade”.

As questões em pauta hoje , me parecem, estão na busca de melhor compreensão e delineamento do fenômeno, a busca de “causas” e/ou “correlações” com uma série de fatores e condições que favorecem sua ocorrência e frequência,que também investigamos através do questionário que está aqui no blog. Paralelamente a estes aspectos, há a necessidade de melhor compreensão dos correlatos neurofisiológicos envolvidos. Esta parte está relacionada com a questão que você levantou sobre as dificuldades envolvendo as pesquisas sobre SL. Vou retomar a questão na sequência.

A maior dificuldade para quem pesquisa sonhos lúcidos está no fato – como diversas pesquisas indicam – que os SL não são frequentes para a maioria dos indivíduos. Ou seja, as pessoas até têm SL, mas não frequentemente. Os números sobre ocorrência e frequência dos SL mudam bastante de país para país, conforme apontam diversas pesquisas. No entanto, a discrepância entre esses números pode ter relação, também, com questões metodológicas, sobre a própria definição do que é um “sonho lúcido”. Basta estar lúcido durante o sonho ou é necessário ter a habilidade de manipular/ controlar elementos do sonho? Essa discussão, que está presente no meu trabalho, é fundamental para delinearmos com clareza o que estamos chamando de “sonho lúcido”.

Voltando ao cerne da sua pergunta: temos, basicamente, duas grandes dificuldades envolvendo a pesquisa de sonhos lúcidos. Uma refere-se à questão da baixa frequência de SL na população em geral. A metodologia científica “pede” que nós tenhamos uma amostra grande o suficiente para que ela seja representativa e possamos ampliar os resultados. A outra dificuldade é que muito do que ainda podemos descobrir sobre os SL depende de uma maquinaria sofisticada, capaz de mapear a atividade cerebral durante a ocorrência dos sonhos lúcidos, o que exige um ambiente laboratorial, com o controle de diversas variáveis.

Nesse caso, duas dificuldades:

  1. a) O alto custo envolvido nessa maquinaria;
  2. b) Conseguir que indivíduos tenham SL num ambiente de laboratório, um ambiente controlado que não facilita o relaxamento dos sujeitos envolvidos no experimento.
Photo by Steve Roe on Unsplash

 

Sabemos que mesmo sonhadores lúcidos experientes, que tem SL frequentemente, encontram dificuldades de alcançarem a lucidez num ambiente de laboratório.

Outra questão é que o sonho (ainda) é uma experiência privada. É uma experiência de primeira pessoa.

Além disso, precisamos de mais investimento para pesquisas nessa área. Precisamos desenvolver parcerias para ampliar os estudos e acesso aos equipamentos necessários para aprofundar os aspectos neurofisiológicos envolvidos nos sonhos lúcidos.

Eu diria que essas são as maiores dificuldades.

5) Existem outras pesquisas instigantes, por exemplo, aquelas referentes ao aprimoramento de habilidades motoras. Alguma aposta sua, sobre futuras pesquisas promissoras na área dos sonhos lúcidos?

A parte de possíveis aplicações dos SL é muito instigante. Mas, também me traz preocupações, inclusive éticas. “Explorar” os sonhos, ocupar e direcionar esse “tempo” que é um tempo precioso, envolvido em processos fundamentais para nossa saúde e bem-estar, merece cuidado.

Sobre pesquisas futuras, pretendo, brevemente, investigar e comparar SL, meditação e imaginação ativa como “ferramentas” para o desenvolvimento de habilidades. Além disso, muitas ideias devem surgir com os resultados do questionário sobre os SL e da tese.

Nós falamos muito dos possíveis benefícios advindos dos sonhos lúcidos,mas precisamos investigar possíveis malefícios também. Por exemplo, se uma frequência acentuada de sonhos lúcidos pode trazer algum malefício ou distúrbio. Outra questão a ser conferida num futuro próximo é: se o sono e os sonhos “normais” (não lúcidos)estão envolvidos e favorecem os processos de aprendizagem , memória e criatividade ( como apontam pesquisas), uma alta frequência de SL pode prejudicar esses processos?

Então, até aqui, as pesquisas têm focado, sobretudo, nos benefícios. Temos uma ênfase nas possibilidades de utilização dos SL como “ferramenta” para o desenvolvimento de habilidades (cognitivas e motoras) e como recurso terapêutico no tratamento de pesadelos,decorrentes de estresse pós-traumático (como vítimas de violência, guerras, etc). Contudo,ainda temos que averiguar, cuidadosamente, possíveis disfunções e / ou correlações “mórbidas” dos SL com algumas alterações psíquicas. A “intensidade” dos SL é outra questão a ser conferida.

Uma aposta para o futuro? Que as pesquisas envolvendo os SL vão colaborar na compreensão de alguns distúrbios psíquicos. A possibilidade de “comunicação” com o sujeito que está sonhando e a leitura de dados dos correlatos neurais da atividade onírica em “tempo real”, é um caminho que me parece muito promissor.

 

 

6) É possível identificar áreas diversas desenvolvendo estudos, artigos e experimentos sobre a consciência nos sonhos. Neurofisiologia, psicologia, filosofia, psiquiatria, ciência do sono, entre outras. Tens vivenciado um pouco dessa interdisciplinaridade?

A interdisciplinaridade está presente na minha vida há muito tempo. Coordeno um grupo de estudos interdisciplinar, o Fórum Atenas – Filosofia – Ciências – Artes, que está completando 20 anos! Então, vivencio a interdisciplinaridade antes mesmo dela virar uma referência no meio acadêmico. Aliás, vale uma reflexão sobre a Interdisciplinaridade: principalmente nos últimos 10 anos CAPES/CNPQ (agências fomentadoras de pesquisas) e MEC mantêm um discurso de apoio e incentivo à interdisciplinaridade. O discurso, infelizmente, está longe de um apoio concreto, principalmente nos últimos tempos.  A formação nas Universidades ainda é altamente disciplinar e pouco espaço para os egressos de programas de pós-graduação interdisciplinares. Os concursos para novos docentes nas universidades produziram pouco espaço (vagas) para pesquisadores oriundos de programas interdisciplinares.

Isso acaba gerando um gap enorme entre o discurso de CAPES/ CNPQ / Ministério da Educação, e o espaço real para a interdisciplinaridade nas Universidades brasileiras. Os concursos para novos docentes/ pesquisadores continuam – na sua imensa maioria – exigindo uma formação extremamente conservadora com o pesquisador tendo que ter feito sua graduação- mestrado e doutorado – no mesmo curso. Então, se você é astrônomo ou psicólogo de formação (graduação) ,mas fez seu mestrado e/ ou doutorado em programa interdisciplinar, poderá encontrar dificuldades, infelizmente. Os programas de pós-graduação interdisciplinares estão gerando pesquisadores com enorme dificuldade de encontrarem espaço nas Universidades. Espero que esse quadro mude.

Mas, voltando ao cerne da sua questão. A minha pesquisa é marcada pela interdisciplinaridade. O trabalho começa trazendo a visão das sociedades antigas sobre os sonhos, começando com um livro encontrado na Mesopotâmia, escrito há milhares de anos, ainda em placas de argila, em escrita cuneiforme.A partir daí, produzimos um painel sobre a visão das sociedades antigas – como Grécia, Egito, China sobre os sonhos. Daí, passamos pelas abordagens da Psicanálise freudiana, da psicologia analítica de Jung, da Fisiologia, Filosofia e da Neurociência contemporânea. Então, é um trabalho profundamente interdisciplinar.

7) Uma das ferramentas do seu trabalho é o questionário que será divulgado aqui no site/Fórum/Grupo Facebook. Poderia nos informar da importância ou contribuição para o estudo dos sonhos lúcidos e outras áreas?

Esse questionário é uma parte de grande relevância para a pesquisa como um todo. O questionário, posso afirmar, é o mais amplo já realizado sobre os sonhos lúcidos no mundo. Foi uma opção bastante pensada realizar um questionário mais extenso, mais complexo, que pudesse aprofundar diversos aspectos ainda nebulosos sobre os sonhos lúcidos. Temos certeza que os resultados poderão nos ajudar bastante a compreender melhor diversos aspectos envolvendo os sonhos e os sonhadores.

O questionário que está online é uma ferramenta poderosa parao estudo epidemiológico dos SL no Brasil. Por quê? Porque, através dele produziremos um amplo painel envolvendo diversos aspectos dos sonhos lúcidos na população brasileira e, além disso, poderemos identificar fatores / características dessa amostra que possam ser generalizadas, dialogando com outras pesquisas realizadas em diversos países e, desta forma, contribuir para melhor compreensão dos sonhos lúcidos.

 

 

Vale lembrar que temos um estudo epidemiológico desenvolvido pelo Rolim (Sergio Arthuro Motta Rolim) para sua tese, em 2012.  Foi um trabalho pioneiro aqui no Brasil e sua pesquisa já trazia dados instigantes que colaboraram, juntamente com informações de outras pesquisas, para a criação desse questionário. Será valioso comparar alguns dados das duas pesquisas e também com outros estudos realizados em diversos países.

Quero aproveitar para agradecer, mais uma vez, o importante espaço para divulgar o questionário aqui no site. Aliás, esse site é, sem dúvida, de absoluta relevância na divulgação de tudo que acontece no “mundo dos sonhos lúcidos”. O site é uma referência e o Márlon incansável no trabalho de atualização, trazendo todas as novidades nas pesquisas, sempre antenado nos novos artigos, técnicas de indução, filmes & cia.

Bom,voltando ao questionário. Apesar de termos avançado bastante nas pesquisas sobre os sonhos e, especialmente, sobre os sonhos lúcidos nos últimos anos, muitas questões permanecem em aberto. Por exemplo, como mencionei anteriormente: existem características / fatores psico-socio-ambientais– comportamentais correlacionados com a ocorrência/ frequência de sonhos lúcidos nos indivíduos? Se sim, que fatores/ características seriam esses? É possível estabelecer relações de “causalidade”? Quais as “correlações” possíveis? Gênero, idade, qualidade e quantidade de sono, crenças, escolaridade, estados de humor, sonhos em “primeira pessoa’, nível de controle, intensidade do sonho, etc…. São muitas possibilidades!  E elas estão investigadas em nossa pesquisa e envolvidas neste questionário. Há uma pesquisa recente de LiatAviram e NiritSoffer-Dudek, por exemplo, apontando a relevância da questão da “intensidade” do sonho lúcido.

Essas são (entre muitas outras) questões instigantes, porque temos dados de pesquisas anteriores, em diversos países,com dados de ocorrência e frequência de sonhos lúcidos bem diferentes nas suas populações. Temos estudos em diversos países e com diferentes grupos de indivíduos, desde estudantes universitários até atletas de alta performance, da China ao Brasil.

Sabemos que ter sonhos lúcidos é uma habilidade que pode ser treinada, mas…ainda sabemos pouco sobre este ponto. A pesquisa busca saber, por exemplo, se os indivíduos costumam usar as “técnicas de indução” e se sentem que elas são eficientes. Queremos averiguar hábitos de sono, características pessoais, crenças dos indivíduos, etc. Claro que estaremos capturando uma experiência subjetiva, um relato de primeira pessoa, e o ideal é que possamos cruzar esses dados com investigações experimentais, em ambientes controlados. Mas, conhecemos a dificuldade de, mesmo um sonhador lúcido experiente, alcançar a lucidez num ambiente experimental. Então, o questionário é fundamental para coletar aspectos relevantes da experiência dos indivíduos, que podem colaborar para a compreensão deste fenômeno complexo.

Acredito que teremos informações novas, que fomentarão outras novas pesquisas e dados que podem corroborar achados envolvendo aprendizagem, desenvolvimento de habilidades, criatividade, entre outros.

O questionário investiga aspectos da manipulação e controle sobre os conteúdos oníricos, tempo médio dos sonhos, frequência, uso das técnicas de indução, pesadelos, nível de controle, etc. Mas, prefiro não falar muito do conteúdo questionário, até para não influenciar nas respostas. O melhor mesmo – para quem está curioso – é entrar no link e respondê-lo! Tenho certeza que quem tem interesse por sonhos lúcidos vai se sentir animado com as questões e não vai sentir o tempo passar. E, tenho certeza, que será uma colaboração importante para entendermos mais esse “estado híbrido de consciência” como a Ursula Voss, uma das mais importantes pesquisadoras sobre o tema, também gosta de chamar.

Então, finalizo convocando os amigos do site: participem e divulguem a pesquisa. rs.

Agradeço e desejo ótimos sonhos lúcidos para todos!

Voltando a essa questão um tanto dramática, a qual já foi tema por aqui.   Dessa vez retorno ao assunto, destacando as pesquisas de laboratório, referente ao nível de eficiência.

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Imagino que a resposta mais simples a essa questão, continue sendo: “aquela que funciona melhor para você”. E ora, isso já vem sendo defendido aqui no site há um bom tempo. Partindo desse ponto, fazendo algumas novas reflexões e considerando os 10 anos de experiência, em pesquisas através do site (e para o site) –  existem de fato alguns fatores que não podem deixar de ser ressaltados.

Em 2011 (ver aqui) fiz um levantamento sobre as Técnicas mais conhecidas: MILD, Tholey, WBTB, Incubação, Reality Checks, WILD e DEILD. Apenas por experiência própria ou opinião pessoal, continuo sugerindo que se experimente por um tempo cada uma delas e seja feita uma avaliação do que é mais efetivo, de acordo com a própria individualidade e as dificuldades/peculiaridades da rotina de cada um.

 

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Uma pesquisa conduzida por Tadas Stumbrys, Daniel Erlarcher e outros ¹ realizou uma análise de diversas técnicas de indução de sonhos lúcidos, experimentadas em laboratório, para determinar a eficiência desses métodos de indução. Fiz uma adaptação em relação a metodologia que utilizaram para graduar, em diversos níveis esse grau de sucesso. Nessa minha adaptação, deve-se considerar as letras A como bom grau de eficiência e letra B, como razoável grau de eficiência. Letra C, como sendo baixo grau de sucesso.  Resumidamente, segue algumas das principais técnicas de indução:

 

Bom grau de eficiência na indução de sonhos lúcidos:

A – Tholey/ Autossugestão, Reflexão e Intenção

A – Autossugestão

A -Sugestão pós-hipnótica

A- WILD

 

Razoável grau de indução de sonhos lúcidos:

B – Estímulos luminosos

B – MILD

B -Intenção

B – Reflexão/Testes de Realidade

 

Baixo grau de indução de sonhos lúcidos:

C- SOM

C- Água

 

Chama a atenção como é importante a autossugestão. O Método de Tholey, quando bem aplicado, reúne não apenas a autossugestão, mas também intenção e reflexão, explicando seu bom nível de eficiência para indução da lucidez nos sonhos. Curiosamente a técnica WILD sempre foi uma das mais acessadas e pode ser vista na página inicial, entre as mais populares/visitadas.  A sugestão pós-hipnótica, certamente deve render um novo post aqui no site.

 

Fonte Bibliográfica:

(1) – STUMBRYS, Tadas e outros. Induction of lucid dreams: A systematic review of evidence. 2012. Conciouness and Cognition 21.

  A Pesquisa    

      O que diferencia o sonho comum de um sonho lúcido? Ao buscar relacionar, através de uma recente pesquisa (VOSS, 2012), quais os principais elementos que diferenciam um sonho comum de um sonho lúcido, o estudo chegou aos seguintes resultados:  raciocínio, insights, controle, emoções positivas, memória e dissociação.

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       Trata-se de uma pesquisa pioneira, portanto os próprios pesquisadores admitem que no máximo podem “tentar estabelecer algumas hipóteses”.  Chama-se a atenção para o fato de que substancialmente as principais características diferenciadoras dos sonhos comuns para os sonhos lúcidos são a capacidade de controle e o insight.

       Foi observada uma estreita relação entre o controle e o insight. De acordo com os dados levantados, a hierarquia de grau de importância desses elementos ficou assim elencada:

1º Insight,

2º Controle,

3º Emoções Positivas

4º Raciocínio,

5º  Memória

6º Dissociação.

       O estudo admite suas limitações ao considerar que obteve seus dados a partir das seguintes fontes: laboratório de sono, relatos escritos e questionários online. Ao se considerar a dificuldade de obtenção de experiências com sonhos lúcidos em laboratório, a pesquisa optou por também analisar as informações obtidas por questionários online. Isso porém, fragiliza um pouco a pesquisa, no sentido de não existir um controle dos experimentos e poder monitorar e analisar as ocorrências dos sonhos lúcidos, especificamente nas fases REM. Por conseguinte, os relatos considerados nos questionários online, podem perfeitamente advir de sonhos lúcidos de sonhos NREM.

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Mercy-s-dream-Daniel-Huntington

Comentários      

       A instigante escala produzida pelos pesquisadores, pode conduzir a novas pesquisas que consolidem ou não a importância dessas características. Particularmente, consigo perceber que praticamente todos elementos parecem corresponder em presença nos meus sonhos lúcidos.

     Com relação a alguma hierarquia entre esses elementos, talvez eu não estimasse o “controle” acima do raciocínio por exemplo.  Pelo menos em minhas experiências com sonhos comuns, não é tão incomum eu exercer algum controle da narrativa, seja sobrepujando algum obstáculo ou quebrando as regras do ambiente.

Referencias Bibliográficas:

Voss, U., Schermelleh-Engel, K., Windt, J. M., Frenzel, C., and Hobson, J. A. (2013). Measuring consciousness in dreams: the lucidity and consciousness in dreams scale. Conscious. Cogn. 22, 8–21. doi: 10.1016/j.concog.2012.11.001

Entrevista imperdível com Sérgio Arthuro Mota Rolim, sobre Sono e Sonhos Lúcidos, no Café Filosófico. A entrevista trata de temas como o sono e os sonhos, a consciência nos sonhos ou os sonhos lúcidos, possíveis benefícios e aplicações das pesquisas com sonhos lúcidos, além de outros temas relacionados. Confira:

Outras entrevistas com o Sérgio Rolim, podem ser conferidas nos seguintes links:

https://sonhoslucidos.com/sonhoslucidos/entrevista-com-sergio-rolim-pesquisador/

https://sonhoslucidos.com/sonhoslucidos/entrevistando-o-dr-sergio-rolim-ultimos/

Fonte:
https://www.facebook.com/cafefilosoficotvu/

 Existe pelo menos um caso que aconteceu com René Descartes envolvendo diretamente uma experiência de sonhos lúcidos. Muitas vezes conhecido como o “pai da matemática moderna” e o “fundador da filosofia moderna”, Descartes é um nome facilmente lembrado e sempre enaltecido por suas gigantescas contribuições para matemática e à filosofia.

   Em sua obra “As Meditações”¹, pode-se acompanhar seu ceticismo metodológico compondo um intenso jogo de crítica ao real, no qual busca alcançar alguma certeza ou pelo menos “as primeiras coisas que podem ser conhecidas filosofando”². Advém dessa luta reflexiva o alcance da dúvida como pilar inabalável… afinal aquele que duvida, está pensando e se está pensando, definitivamente existe. Daí a célebre frase: “Penso, logo existo”.

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René Descartes

   Ao vasculhar material bibliográfico para minhas pesquisas, descobri que Descartes além de ser um exímio sonhador – usava seus sonhos para auxiliar em suas produções intelectuais – também era capaz de ter sonhos lúcidos.

  Essa relação de Descartes com os sonhos leva-o a construções argumentativas surpreendentes. Destaca-se como percebeu nos sonhos, a facilidade com que a experiência sensorial pode ser simulada. Para o filósofo francês, pode-se chegar ao ponto de ser praticamente impossível distinguir o estado desperto de um sonho. Vale destacar seu poder reflexivo, o qual era capaz de manter, ainda durante seus sonhos, em especial, seu terceiro sonho da noite de 10/11 de novembro de 1619, quando estava em Ulm, na Alemanha. De acordo com a versão de Adrien Baillet, citada por Marie-Louise von Franz ³, sobre o relato de Descartes:

  “Descartes nos conta que estava cheio de entusiasmo e completamente absorvido pelo pensamento de ter, nesse dia, descoberto as bases de uma “ciência maravilhosa”. Durante a noite ele teve três sonhos consecutivos(…).

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    (…) Logo depois disso, ele teve um terceiro sonho, que não foi tão terrível quanto os dois anteriores.

    Nesse último sonho, ele encontrava um livro sobre a mesa dele, sem saber quem o havia deixado lá. Ele o abriu e ficou maravilhado de ver que era um dicionário, esperando que pudesse ser útil a ele. No instante seguinte, outro livro apareceu, tão novo para ele quanto o primeiro e de origem igualmente desconhecida. Ele descobriu que era uma coleção de poemas de diversos autores, cujo título era Corpus Poetarum etc. Ele ficou curioso para descobrir o que ele continha e, ao abrir o livro, os olhos dele pousaram sobre a frase Quod vitae sectabor iter? Ao mesmo tempo, ele viu um homem que ele não conhecia, que mostrava a ele um poema que começava com as palavras “Est  et non”, e exaltou a excelência dele. Descartes disse ao homem que conhecia o poema, que estava entre os idílios de Ausônio e estava incluído na grande coleção de poemas que estava sobre a mesa dele. Ele quis mostrá-lo ao homem e começou a virar as páginas, gabando-se de conhecer a ordem e a arrumação perfeitamente. Enquanto ele procurava, o homem perguntou onde ele havia comprado o livro. Descartes respondeu que não poderia dizer como o havia conseguido, mas que, um instante atrás, ele estava com um livro nas mãos que havia desaparecido, sem que ele soubesse quem o havia trazido, nem quem o havia levado embora novamente. Ele mal havia terminado de falar quando o livro reapareceu na outra ponta da mesa. Ele descobriu entretanto, que o dicionário não estava mais completo, sendo que antes, parecia estar. Enquanto isso ele encontrou os poemas de Ausônio na antologia de poetas, que ele estava folheando; mas, incapaz de encontrar o poema que começava com “Est et non”, ele disse ao homem que conhecia um poema mais bonito do mesmo autor, que começava com “Quod vitae sectabor iter?” O homem pediu que ele o deixasse ver, e Descartes estava procurando-o atentamente quando ele se deparou com um número de pequenos retratos – gravuras em placas de cobre – que o fizeram exclamar quanto à beleza do livro; mas não era a mesma edição daquele que ele conhecia.

A essa altura, tanto o homem quanto os livros desapareceram e sumiram do olho da mente dele, mas ele não acordou. O impressionante é que, estando em dúvida se essa experiência era um sonho ou uma visão, ele não apenas decidiu, enquanto ainda dormia, que era um sonho, como ele também o interpretou antes de acordar.

Ele concluiu que o dicionário significava a conexão entre todas as ciências e que a coleção de poemas, intitulada Corpus Poetarum apontava especial e claramente para a união íntima da filosofia e a sabedoria. Pois ele pensou que ninguém deveria se surpreender de descobrir(…).”

Referências Bibliográficas:

1 -DESCARTES, R. Discurso do método, As Paixões da Alma e Meditações (Coleção Os Pensadores, vol. Descartes). São Paulo: Nova Cultural, 1999.

2 – HUISMANN, Denis, Dicionário dos Filósofos. São Paulo – SP: Martins Fontes, 2004.

3 – FRANZ, Marie-Louise von, Sonhos Um Estudo dos Sonhos de Jung, Descartes, Sócrates e outras figuras históricas. Petrópolis – RJ: Editora Vozes, 2011.