Tag

Pesquisas sobre sonhos lúcidos

Browsing
     Visita ao Instituto do Cérebro, centro de referência brasileiro. Tivemos o privilégio de conhecer de perto as instalações do Instituto do Cérebro – UFRN, em Natal-RN. Trata-se de um centro de pesquisas brasileiro, o qual reúne mentes brilhantes do nosso país e de outras nacionalidades. O Professor Doutor Sérgio Arthuro Mota Rolim, autor de tese “Aspectos Epidemiológicos cognitivo-comportamentais e neurofisiológicos do sonho lúcido”¹, segue conduzindo pesquisas em neurociências e nos apresentou pesquisas em andamento no instituto.
     No bate-papo comentou sobre a recente pesquisa(fora do instituto) com sonhos lúcidos, realizada por Ursula Voss, Allan Hobson e outros, na qual foram induzidos sonhos lúcidos por estímulos elétricos. A pesquisa traz dados curiosos, como a possibilidade de indução da consciência em sonho REM, numa faixa específica de frequência, conhecida como Gama, oscilando entre 25 e 40 Hz. Para Rolim, essa linha de pesquisa ainda deverá se aprofundar, para obtenção de resultados mais sólidos.
     Tivemos a oportunidade de acompanhar uma pesquisa junto ao Hospital Universitário Onofre Lopes, onde o professor Sérgio pesquisa a aplicação de aumento de latência de sono REM e seus efeitos sobre a depressão. No laboratório de sono, acompanhamos o início do sono do paciente-voluntário e tivemos uma mini-aula sobre os registros de atividades neurofisiológicas e o significado dos diversos tipos de frequências cerebrais.
Mini-aula com o professor Sergio Rolim sobre neurofisiologia.
       Com pesquisas desde 2007 sobre sonhos lúcidos, totalizando 13 anos com o sono em geral, Sérgio fez observações fascinantes sobre o tipo de estímulo que acredita ter mais possibilidade de interferência ou ser incorporado no sonho: o som. De acordo com os relatos coletados, em suas pesquisas, verificou ser uma ferramenta, com grande potencial para se trabalhar possíveis frequências de indução de sonhos lúcidos.
       Ainda no Instituto do Cérebro, tivemos a oportunidade de conversar com alguns pesquisadores e presenciar o andamento de pesquisas como na área de neurobiologia celular, biotecnologia, neurofisiologia computacional, neurofeedback entre outros…
Visita ao laboratório, no qual acontecia a pesquisa com neurofeedback.
        Voltamos a conversar sobre a pesquisa realizada por Sérgio Rolim, através de um grande questionário para mais de 4.000 sonhadores lúcidos. Foram 20 questões, relacionando elementos como aspectos desses sonhos, temas recorrentes e fatores determinantes na indução.
       Com a análise dos resultados, descobriu-se a identificação de possíveis elementos que favoreçam a indução da consciência nos sonhos, com destaque em primeiro lugar para a intenção. Isso significaria que adormecer desejando ter o sonho lúcido, pode ser mais determinante do que se imagina. Tal resultado é corroborado por pesquisadores alemães², em que fizeram um levantamento sobre diversas técnicas de indução e a intenção(propósito) ficou com uma pontuação razoável.
Casal de sonhadores lúcidos  que realizou a visita 🙂
           Já ressaltei a importância da indução algumas vezes. Vale relembrar uma boa ideia de sua aplicação:
    – Antes de dormir, procure se imaginar, intensamente, experimentando um sonho ou vivenciando um sonho como se já estivesse nele. Ainda durante esse exercício imaginativo – acordado – reconhecendo que está sonhando.
Fontes:
(1) ROLIM, Sérgio A. M. Aspectos Epidemiologiocos Cognitivos-Comportamentais e Neurofisiológicos dos Sonhos Lúcidos. Tese(Doutorado em Psicobiologia).  – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal. 2012.
(2) STUMBRYUS, Tadas. ERLARCHER, Daniel. SCHADLICH, Melanie. SCHREDL,Michael Schredl Induction of lucid dreams: A systematic review of evidence. Conciousness and Cognition 28.07.2012 – ELSEVIER.
https://www.sonhoslucidos.com/2012/12/aspectos-socio-demograficos-cognitivo.html
https://www.sonhoslucidos.com/2014/05/proposito-na-inducao-de-sonhos-lucidos.html

Existe um debate que se prolonga ao longo dos anos a respeito da natureza dos sonhos lúcidos. E foi manifestada em uma questão intrigante colocada pelo sonhador lúcido Niro, em nosso Fórum sobre Sonhos Lúcidos:

“Não… Não estou perguntando o que é um sonho lúcido! Isso eu sei pois já os tenho há muito tempo.
Mas sim: Por que eles existem? Teriam alguma função na evolução humana?

Qual a origem dos sonhos lúcidos? Poderia ser algum tipo de alteração cerebral/mental, com potencial evolutivo? Na imagem, cena do excelente filme A Cidade dos Amaldiçoados, com Christopher Reeve.

Será que são frutos de um erro? Alguma “falha” no complexo sistema de nosso cérebro. Da qual alguns seres humanos tiram proveito para se divertir? Afinal de contas o normal, pelo menos, de acordo com a maioria, seria estar totalmente inconsciente durante o sonho.”

Uma resposta especulativa, de minha parte, vai no sentido de que ainda não existe uma pesquisa conclusiva abordando esse tema. Então a gente precisa reunir alguns indícios ou pesquisas pioneiras que se aproximem um pouco do tema e ver para que lado a coisa parece apontar.

Existe duas correntes trabalhando com hipóteses divergentes:

Stephen LaBerge: defendendo que o sonho lúcido é um estado mental, sustentado pela estrutura da fase REM do sono. Significaria que estar num sonho lúcido, ainda seria estar dentro da fase REM do sono.

Alan Hobson e Ursula Voss: defendendo que o sonho lúcido é um estado mental dissociado ou uma parassonia, no qual se equivale a outros estado híbridos do cérebro, como a paralisia do sono, alucinações hipnagógicas, auditivas, hipnopômpicas etc..
Porém, se partirmos apenas dessas duas perspectivas, será que iremos para lugares diferentes?!

Análise de atividade cerebral entre os estados mentais quando acordados(o superior), no estado do sonho lúcido(meio) e em fase REM comum(não lúcido). Allan Hobson e Ursula Voss, classificam o sonho lúcido como um Estado Dissociado.

Caso seja um Estado Mental, como defende o LaBerge, fica mais aceitável que o sonho lúcido pode mesmo se tornar consequência evolucionária. Um tipo de variação da nossa mente que pode se tornar dominante, uma vez que se mostre aproveitável e seja estimulada/disseminada na nossa cultura.

Caso seja um Estado Dissociado, como defendem Ursula Voss e Hobson, poderia ficar mais difícil tornar o sonho lúcido uma ferramenta de uso para nossa espécie. Afinal sendo um estado dissociado ou parassonia, sabemos que alguns deles são mais difíceis de se induzir… mas outros estados dissociados como a paralisa do sono, também podem ser induzidos…

Ainda assim, independente da natureza de origem ou da verdadeira raiz de onde está partindo o sonho lúcido, podemos identificar um sensível progresso tanto do número de pessoas interessadas, como praticantes e também das atenções de grandes universidades e centros de pesquisas para com o tema.

Grandes centros de pesquisa e universidades na Alemanha, EUA, Inglaterra seguem se aprofundando nas pesquisas sobre sonhos lúcidos. No Brasil, tivemos o pioneirismo através da UFRN, com Sérgio Arthuro Rolim com sua tese “Aspectos Epidemiológicos cognitivo-comportamentais e neurofisiológicos do sonho lúcido”.

Fica parecendo mais razoável para mim que o sonho lúcido, sendo um estado mental, sustentado pela fase REM ou um estado dissociado, é comprovadamente passível de indução, e por conseguinte, servirá como um grande instrumento de desbravamento da mente/cérebro/consciência, bem como uma longa lista de benefícios em áreas relacionadas.

Vale ressaltar por fim, ser típico da natureza/universo, trilhar caminhos não lineares, mas muitas vezes aleatórios, como raízes de uma árvore que se expandem em direções diversas, com apreço pela diversidade, a qual é ela quem acaba amplificando maiores chances de permanência/sobrevivência.

Vejo nossa consciência nos sonhos dessa maneira. É uma porta que nos foi oferecida e que independente da forma como foi originada, estamos começando sua exploração.

Referências Bibliograficas:

(1) – Signal-verified lucid dreaming proves that REM sleep can support reflective consciousness Intenational Journal of Dream Research, volume 3, nº 1. pg 26-27 (2010).

(2) – NEUROCIÊNCIA da Mente e do Comportamento. LENT, Roberto(Coordenador).
Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.

FÓRUM(questão do Niro):
http://sonhoslucidos.forumeiros.com/t940-afinal-o-que-seriam-os-sonhos-lucidos

Nosso entrevistado que faz uma pesquisa pioneira sobre sonhos lúcidos, Sérgio Arthuro Mota Rolim,  é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2004), com iniciação científica na área de sono, memória e ansiedade. É mestre em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo Escola Paulista de Medicina (2007), trabalhando com a influência dos ritmos biológicos no sono e na memória. Concluiu seu doutorado pela UFRN, tendo como objeto os aspectos sócio-demográficos, cognitivo-comportamentais e neuro-psicológicos do sonho lúcido.

Dr. Sérgio Arthuro Mota Rolim representa o Brasil, na área de pesquisa sobre a presença da consciência nos sonhos.

1)Como os sonhos lúcidos poderiam auxiliar no estudo e/ou tratamento de alguns tipos de psicose? Que relação existe entre esse tipo de transtorno e a consciência nos sonhos?

Sérgio: Durante o sonho, o cérebro gera imagens e sons que não são decorrentes da estimulação vinda do ambiente (ao contrário do que acontece quando estamos acordados), o que é bastante semelhante as alucinações visuais e auditivas dos pacientes esquizofrênicos. Além disso, nossa capacidade de julgamento racional durante os sonhos está bastante diminuída (com a exceção dos sonhos lúcidos), pois acreditamos que as coisas bizarras que aparecem nos sonhos estão acontecendo de verdade, o que é bastante parecido com os delírios presentes na esquizofrenia. Dessa forma, vários trabalhos têm demonstrado que o sonho é um excelente modelo para o estudo da esquizofrenia. Assim, o estudo dos sonhos (lúcidos ou não) pode também nos ajudar a compreender melhor a psicose.

Com relação ao tratamento em si, ainda estamos apenas engatinhando… No entanto, eu e uma brilhante estudante de medicina que colabora comigo – Adara Resende – levantamos a hipótese de que seria possível que o sonho lúcido pudesse diminuir os delírios psicóticos durante uma crise. Isso aconteceria porque se o sujeito aprender a ficar lúcido no sonho, ele vai ser capaz de emitir um julgamento racional sobre a situação em que se encontra, o que poderia também acontecer enquanto o mesmo estivesse acordado tendo uma crise, ou seja, ele aprenderia a controlar suas alucinações e delírios, como acontece no filme “Uma mente brilhante”. No entanto, por enquanto, podemos apenas especular sobre essa possibilidade do sonho lúcido diminuir também os delírios, já que ainda ninguém testou experimentalmente essa hipótese.

Adara Cabral Resende é estudante de medicina na UFRN e de iniciação cientifica no Instituto do Cérebro, com pesquisa em andamento sobre sonhos lúcidos.

2) Uma perspectiva importante para o uso dos sonhos lúcidos é o tratamento de pessoas com pesadelos recorrentes, pessoas com depressão ou que passaram por algum trauma… pelo seu estudo que alternativas poderiam ser aplicadas, uma vez que o uso do sonho lúcido estivesse consolidado? 

Sérgio: Acreditamos que estando lúcido num pesadelo, o sujeito pode tentar 3 coisas:

1 modificar o sonho = com controle sobre o conteúdo onírico, seria possível tentar transformar o pesadelo num sonho neutro ou até bom.

2 não ter medo do pesadelo = estando lúcido, o sonhador pode perceber que as ameaças que acontecem durante o pesadelo não trazem um perigo físico real.

3 acordar = é possível também acordar durante o pesadelo para acabar com o mesmo, apesar de que alguns autores acreditam que o ideal seria tentar compreender porque o pesadelo está acontecendo daquela forma, até para evitar ter outros.

3) Os sonhos lúcidos podem ser prejudiciais de alguma maneira?

Sérgio: Até agora nada leva a crer que o sonho lúcido em si possa ser prejudicial. No entanto, algumas pessoas não gostam de ter sonhos lúcidos. Na verdade, o que acontece com essas pessoas (até agora eu tive oportunidade de conversar com duas delas) é que elas ficam lúcidas num pesadelo, daí tentam acordar mas não conseguem, como se ficassem presas no sonho. É comum também a relação do sonho lúcido com a paralisia do sono, que é uma das piores sensações que podemos experimentar, pois acordamos e não conseguimos nos mexer.

4) É possível que sonhos conscientes possam contribuir para o aprimoramento de habilidades que envolvam coordenação motora? 
 
Sérgio:  Estudos mostram que simulações mentais de habilidades motoras podem aumentar o desempenho real em tarefas comportamentais: a imaginação repetida de contração muscular aumenta a força muscular propriamente dita, e além disso, simulações mentais melhoram a aprendizagem das habilidades motoras e o desempenho esportivo.          Curiosamente, as habilidades motoras podem ser adquiridas na ausência de um processo de aprendizagem plenamente consciente. Estas observações sugerem que ser capaz de realizar movimentos imaginários durante o sonho lúcido poderia influenciar as habilidades motoras reais durante o estado acordado. Desta forma, os pacientes com deficiência física poderiam praticar tarefas motoras durante o sonho lúcido e avaliar se este “ensaio onírico” diminui os seus sintomas motores. Além disso, o treinamento motor durante o sonho lúcido também pode ser utilizado por indivíduos normais para melhorar suas habilidades físicas.
    Cientistas alemães com quem estamos colaborando fizeram um experimento em que treinavam um grupo de pessoas a jogar uma moeda para dentro de um copo a uma certa distância. Os pesquisadores observaram que aquelas pessoas que treinavam novamente jogar uma moeda num copo durante o sonho lúcido tinham um desempenho real melhor no dia seguinte, ao contrário das pessoas que não treinaram isso no sonho. Esse tipo de pesquisa ainda está na sua fase inicial, mas indica a possibilidade de pessoas comuns ou atletas obtenham uma performance melhorada com um treinamento onírico extra.
5) Seu estudo também envolveu uma análise neurofisiológica desse estado mental. O que mais lhe chamou atenção nesse sentido? 
Sérgio: Nossos resultados preliminares (ainda não publicados), com a análise matemática e estatística do sinal do eletroencefalograma em 5 sujeitos que tiveram sonho lúcido e que conseguiram fazer os movimentos pré-combinados com os olhos, indicam que o sonho lúcido é um estado de transição do sono REM para a vigília, ou seja, apesar de o sonho lúcido ser um sonho, o cérebro está bem próximo de despertar. Quando estamos acordados e de olhos fechados, nosso cérebro entra no estado de sincronização global numa oscilação próxima a 10 ciclos por segundo (ou 10Hz) que é o chamado ritmo alfa, e que está muito associado a meditação. Durante o sonho normal, a potência desse ritmo é muito baixa (numa escala de 0-10 seria = 1).
   Quando o indivíduo está em sonho lúcido, a potência do ritmo alfa sobre para 5, e quando ele acorda vai para 10. Assim, o sonho lúcido seria um estado intermediário entre o sono REM e a vigília. Isso explica porque para a maioria das pessoas o sonho lúcido dura muito pouco (como observamos no questionário que aplicamos pela internet), pois elas acordam logo depois de se darem conta que estavam sonhando. Entretanto, para algumas pessoas essa transição se dá de forma mais gradual e prolongada, aumentando o tempo de duração do sonho lúcido; mas ainda não sabemos porque isso acontece. No questionário que aplicamos, o fator relatado que mais facilitou a ocorrência de sonho lúcido foi dormir sem hora para acordar, o que aumenta enormemente a quantidade de sono REM, pois essa é a fase do sono em que sonhamos, e que acontece principalmente nas últimas horas do sono.
      Observamos também que muitas pessoas relacionam o sonho lúcido com o estresse, que aumenta a quantidade de despertares, fortalecendo a ideia que o sonho lucido é um estado intermediário (ou fase de transição) entre o sono REM e a vigília.
Essa hipótese do sonho lúcido como estado de transição entre o sono REM e a vigília explicaria muito bem os sonhos que já começam lúcidos (como descrito na técnica WILD desenvolvida por Laberge) ou os sonhos que ficam lúcidos só no finalzinho, quando a pessoa está próxima de acordar. No entanto, é possível também ficar lúcido durante o sonho (no meio do sonho por exemplo), principalmente quando nos deparamos com um “sinal de sonho”, que seria algo muito bizarro que só pode acontecer nos sonhos, como a habilidade de voar, ou encontrar alguém que já morreu. Em um dos sujeitos que investigamos, observamos uma ativação na região frontal do cérebro durante o sonho lúcido. Dessa forma, esses resultados sugerem que o sonho lúcido também seria decorrente de uma ativação nessa região. Vários trabalhos na literatura demostram que essa região está relacionada com a auto-consciência e a formação da imagem corporal, logo faz sentido que a mesma esteja ativada durante o sonho lúcido, que é caracterizado pela consciência de estar sonhando durante o sonho.

6)A partir de onde
chegou, que novas perspectivas de estudo mais lhe fascinam ou novas hipóteses
com as quais gostaria de se aprofundar?


   Sérgio:  Gostaria de no pós-doutorado
testar se realmente o sonho lúcido é um estado de transição entre o sono REM e
o estado acordado. O experimento seria dar um estímulo sonoro (que pode ser uma
música por exemplo) durante o sono REM. Esse estímulo sonoro seria inversamente
modulado pela potência da frequência alfa, ou seja, começo com um volume bem
baixo e vou aumento com o tempo até que o indivíduo vai acordando e a potência
do ritmo alfa vai aumentando também. Quando isso acontecer, eu diminuo o volume
do som o que vai fazer com que o sujeito volte a dormir. Daí novamente eu
aumento o volume e assim sucessivamente, como o objetivo de deixar o sonhador o
mais tempo possível na transição entre o sono REM e a vigília. Se o sonho
lúcido acontecer realmente nessa transição, esperamos que dessa forma
consigamos induzir mais sonhos lúcidos.

Será possível trabalhar com estímulos sonoros, controlando gradativamente sua intensidade e incorporando ele nos sonhos e na imersão da consciência nesse estado mental? Alguém aí lembra de um paralelo no filme da imagem? Uau!
Outra forma de induzir o sonho
lúcido seria através de estimulação magnética transcraniana (EMT). A EMT como o nome
diz, consiste em estimular áreas específicas do cérebro com pulsos de campo
magnético sobre o couro cabeludo, ou seja, de forma não invasiva. Em um
dos sujeitos que investigamos, observamos uma ativação na região frontal do
cérebro durante o sonho lúcido. Dessa forma, esses resultados sugerem que o
sonho lúcido também seria decorrente de uma ativação nessa região. Vários
trabalhos na literatura demostram que essa região está relacionada com a
auto-consciência e a formação da imagem corporal, logo faz sentido que a mesma
esteja ativada durante o sonho lúcido, que é caracterizado pela consciência de
estar sonhando durante o sonho. Como alguns trabalhos (inclusive o meu)
observaram que o sonho lúcido está relacionado com a região frontal do cérebro,
é possível que a estimulação dessa região durante o sono REM desencadeie um sonho
lúcido.

Gostaria também de investir em técnicas para
registrar com mais detalhes as áreas cerebrais mais relacionadas com o sonho
lúcido, como a Ressonância Magnética Funcional. A técnica de registro da
atividade do cérebro por RMF consiste em medir as pequenas variações no fluxo
sanguíneo em áreas cerebrais que estão sendo preferencialmente recrutadas por
tipos específicos de tarefas. Quando mexemos a mão (ou pensamos em palavras) há
um aumento do aporte de sangue para as populações neuronais mais relacionadas
com o processamento desses tipos de tarefas, sendo esse sinal (grosseiramente
falando) o que a RMF consegue medir. Poucos laboratórios hoje no mundo estão
fazendo esse tipo de pesquisa, sendo um deles no Instituto Max Planck de
Munique (Alemanha), onde dei palestra no ano passado sobre o meu trabalho, na
tentativa de conseguir uma bolsa de pós-doutorado.

É difícil ter sonhos lúcidos? De acordo com os pesquisadores/cientistas na área e eles são “os caras” que mais correm atrás de sonhadores lúcidos eficientes – pagando até ¢50 euros por noite(laboratório de uma pesquisa da Ursula Voss/Alan Hobson), é difícil conseguir bons sonhadores lucidos.

Imagem do filme Minority Report, baseado num conto do genial Philip K. Dick.

Vejam o caso do Bruno Grego, na pesquisa do Sérgio Rolim. A média dele é de 2 noites com sonhos lúcidos por semana. Considero uma média alta, de sonhador lúcido de grau avançado. Tomei a liberdade de convencionar assim, com base no que vamos encontrando nas pesquisas e num engano comum sobre o que de fato é estar consciente num sonho.

Um engano bem comum é aquele de que dominar a narrativa de um sonho ou realizar feitos mirabolantes, significa que ficou consciente. Parece-me bem mais razoável pensar nisso como “controle”. E controle, como vivo defendendo, é diferente de consciência.

Vou até citar o que comentam dois dos pesquisadores que estão no front dessas pesquisas(Voss/Hobson):

“Nós ficamos surpresos como é difícil reproduzir as ocorrências de sonhos lúcidos para os laboratórios de sono. Do nosso grupo inicial de 20 pessoas que alegavam experimentar a consciência nos sonhos, pelo menos 2x por semana, somente 3 conseguiram a lucidez e apenas UMA vez.(…)”

Imagem extraída da pesquisa dos pesquisadores, Dr(a)(s). Ursula Voss e Alan Hobson. É possível sem maiores explicações, identificar o estado mental Acordardo(WEC), o estado mental de sonho lúcido(Lucid), e o estado de sonho normal em REM.

Imaginem a frustração dos onironautas e dos pesquisadores ao se depararem com essa dificuldade. Apesar das diferenças entre noites de sono num laboratório, cheio de eletrodos e pessoas te observando dormir, comparando com um boa noite de sono no aconchego de casa… os resultados, na minha opinião até que nem foram tão ruins assim.

Fato é que tanto os métodos de indução quanto as tecnologias continuam se desenvolvendo. Nesse ano por exemplo, em meu Diário de sonhos, venho acompanhando uma sensível melhora no índice de ocorrências. É possível que as recentes pesquisas, apontando uma maior eficiência da reunião de elementos, como o propósito/intenção, reflexão e autossugestão tenham me auxiliado a focar uma metodologia mais eficaz.

Referências Bibliográficas/Fontes:

STUMBRYS, Tadas e outros. Induction of lucid dreams: A systematic review of evidence. 2012. Conciouness and Cognition 21.

VOSS. Ursula, HOBSON Alan. Romain Holzmann, Inka Tuin. Lucid Dreaming: A State of Consciousness with Features of Both Waking and Non-Lucid Dreaming.  Fonte: http://www.journalsleep.org/ViewAbstract.aspx?pid=27567

LaBerge, Stephen. Signal-verified lucid dreaming proves that REM sleep can support reflective consciousness Intenational Journal of Dream Research, volume 3, nº 1. pg 26-27 (2010).

Numa fascinante pesquisa conduzida por Erlarcher, Schredl, Stumbrys e Schadlich, buscando medir a eficiência de diversas técnicas de indução de sonhos lúcidos, foi identificado o aumento de ocorrências de sonhos conscientes, com a aplicação do Método de Tholey.

O Método de Tholey reúne passos que podem ser determinantes na infução de sonhos lúcidos.
Na imagem, cena do ótimo filme Imensidão Azul.

Sonhadores lúcidos experientes obtiveram aumento de frequência de lucidez nos sonhos, enquanto pessoas que ainda não haviam experimentado a consciência nos sonhos, também registraram seus primeiros sonhos lúcidos. Essa eficiência se manifestou quando esse grupo foi exposto ao Método de Tholey e obteve suas primeiras experiências, diferente do “grupo de controle” que não foi apresentado a técnica e não teve resultados.

Esse método, apontado pelos cientistas(e amplamente divulgado aqui no blog), envolve ferramentas como reflexão, intenção e autossugestão.

Requer o desenvolvimento de uma estrutura mental(reflexão). Imaginar-se no sonho e reconhecer que está sonhando(intenção/propósito/idéia), assim como se tornar consciente quando perceber que está sonhando(autossugestão).

Reflexão, intenção e autossugestão são elementos que formam a base do Método de Tholey. Na imagem cena do excelente filme do Jornada nas Estrela – Star Trek: Além da Escuridão que estréia agora dia 14/06/2013. Vi a pré-estréia e o filme é apaixonante ;D

A pesquisa atingiu score equivalente a eficiência de 15 pontos/requisitos, classificando-a como de eficiência “moderada”, sendo que essa pontuação, reunia uma série de 27 pontos/requisitos. Métodos como MILD, WBTB e Reality Checks variaram entre 5 e 8 pontos apenas e foram considerados de baixa eficiência.

Pessoalmente, desde meu primeiro contato com esse método, através do livro All About Dreams(O Livro de Ouro dos Sonhos), da psicóloga Gayle Delaney, em que ela faz um comparativo entre Tholey X MILD, comecei a direcionar bem mais minha atenção ao Tholey. De fato, pela vasta experiência do psicoterapeuta, no tratamento direto com pacientes, sua técnica se revelou bem mais apurada que a de LaBerge(MILD). No entanto, sempre que possível, aplico certos passos do MILD, como por exemplo aquela despertada pela 6a hora de sono, para continuidade do sono em seguida.

Fonte:

STUMBRYS, Tadas e outros. Induction of lucid dreams: A systematic review of evidence. 2012. Conciouness and Cognition 21.

Agradecimento especial ao Zé Felipe de Sá pelo fornecimento da pesquisa. Ele é formado em psicologia(Universidade Salvador) e tem pós-graduação pelo Instituto Junguiano da Bahia.

     A velocidade do desenvolvimento tecnológico é surpreendente. Num piscar de olhos e uma avalanche de notícias anunciam que cientistas japoneses começaram a “ler” os sonhos. Achei que as notícias estavam atrasadas, pois já havia informado aqui no blog que cientistas da Universidade da California em Berkeley, tinham conseguido reconstruir imagens mentais, através dos registros de atividades cerebrais:
Seus Sonhos Gravados como num Filme

Na imagem, cena do ótimo filme Source Code – Contra o Tempo.

     Essa decodificação pioneira dos sonhos aconteceu na verdade no Japão, pelos laboratórios do Instituto Internacional de Pesquisas de Telecomunicações Avançadas (ATR) de Kyoto. Através da tecnologia de Máquina de Ressonância Magnética, relatos dos voluntários no laboratório e o estabelecimento de padrões entre os registros das atividades e esses relatos. Com uma eficiência de 60%, o algoritmo criado foi capaz de recriar os objetos originados dos sonhos.

Neo tentando entender se estava dentro da Matrix, desperto, sonhando, em coma… ou  partido dessa pra melhor!…

     A primeira vista a impressão que tenho é de mais uma “corrida tecnológica”.Dois lugares distantes no planeta, aventuram-se em desbravar espetacularmente uma área que trará implicações interessantes, também para a pesquisa dos sonhos lúcidos. Especialmente porque já podemos imaginar um possível elo entre essa tecnologia um pouco mais desenvolvida e o monitoramento de sonhadores lúcidos realizando uma nova diversidade de experimentos.

Fonte:
http://articles.latimes.com/2013/apr/05/science/la-sci-mind-reading-dreams-20130405