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Controle de Sonhos X Sonhos Lúcidos

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Existe sonho meio – lúcido? É possível sentir medo em um sonho lúcido? Saber que está sonhando e ter dificuldade de recordar planos realizados no estado desperto?  Não conseguir controlar, fazer proezas fantásticas ou manipular o sonho, mesmo se sentindo plenamente consciente, como se estivesse acordado?

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Será possível saber que estamos sonhando, mas não atingirmos uma consciência próxima do estado desperto?

Convido sonhadores lúcidos e interessados, para uma intrigante reflexão: considerando que existe uma cabal diferença entre saber que está sonhando(sonho lúcido) e o sonho comum, o qual permanecemos ignorando nosso estado adormecido(e de sonho)… seria possível ficarmos no meio-termo disso tudo?!

Numa perspectiva mais prática ao questionarmos: “estou sonhando ou não?”. O problema parece ficar resumido em saber ou não saber que estamos sonhando.

Essas questões envolvem a necessidade de investigação sobre a própria natureza e o conceito do que é sonho lúcido. Para Revonsuo (1995), em seu artigo ‘Consciência, sonhos e realidades virtuais’·, os sonhos são essenciais para a compreensão da consciência desperta. Pode-se dizer, na perspectiva do sonho lúcido, como uma oportunidade para explorar o quão profunda é a toca do coelho, quando tratamos da presença da consciência nos sonhos.

Quando questionamos a natureza de um sonho lúcido, conceitualmente o elemento mais exaltado é “saber que estamos sonhando”(Green 1968, Gruber, Steffen & Vonderhaar 1995, Laberge and Gackenbach 2000, p. 152).  Essa concepção traz um conjunto de elementos que podem ajudar a explicar os motivos pelos quais a experiência da consciência nos sonhos  ou o sonho lúcido, pode variar tanto de um sonho para outro.

Um exemplo de sonho recente que tive, no qual costumo colocar em cheque minha lucidez:

“Observando um prédio, um grupo de pessoas se aproximava em desespero. Assaltantes estavam vindo!… Acompanhava o sonho sem participar, como observador, presenciando a correria pelos corredores do prédio. Muitos conseguiram entrar nos apartamentos, mas alguns ficaram para fora, dentre os quais minha amada.

Levaram ela embora. Minha personagem surgiu e eu estava enfurecido. Procurei um lugar para sair, onde os pegaria de surpresa. Encontrei um corredor que dava para uma abertura do prédio, porém sem elevador ou escadas. Olhei para baixo do prédio e senti medo. Ao mesmo tempo…

Nesse momento percebi que estava sonhando. Só podia!

Saltei sobre aquela abertura e flutuei. Voei em direção aos criminosos. Comecei a dar socos, os quais foram ficando mais e mais fortes. Os murros eram tão fortes que os bandidos voavam e seus corpos se arrebentavam contra paredes. Perguntei para um deles se “estavam afim de ganhar um câncer na próstata?” e soltei uma fulgurante rajada laser dos meus olhos…”

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Salvei minha esposa… e o sonho terminou.

A crítica que eu faço para esse tipo de sonho, com relação a existência de lucidez, é no sentido da incapacidade de refletir, durante o sonho, sobre a inexistência de perigos e que tudo no sonho era simples criação mental minha.

Talvez eu tenha obtido uma percepção da realidade do sonho. Percebi estar apenas sonhando e pude agir dentro da narrativa do sonho, aproveitando-me desse conhecimento e utilizando os recursos disponíveis, entre os quais, não me preocupar com a altura do prédio, voar e vencer qualquer inimigo, etc.. entretanto seria possível ter certeza de que isso foi um estado tão consciente quanto o desperto?

Ora, ao tomar conhecimento de que tudo era apenas um sonho, o que justificaria meu esquecimento de realizar as coisas que tinha planejado fazer quando voltasse a ter um sonho lúcido? Pior, qual a razão de ficar brigando com personagens que eram simples criações mentais minhas?…

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 Não seria oportuno questionar a concepção comum de que o sonho lúcido seja apenas “saber que estamos sonhando”? Saber ou não saber, já pode não soar de maneira retumbante como o conceito definitivo de lucidez no sonho. A nossa mente, assim como no estado desperto, parece poder apresentar graus de lucidez ou consciência.

Uma pesquisa publicada em 2012(VOSS e outros 2012), dotada de uma interessante interdisciplinaridade – áreas da filosofia, psicologia e neurociência estão envolvidas – discriminou oito elementos que foram analisados comparativamente entre os sonhos comuns e os sonhos lúcidos: controle, realismo, memória, intuição, emoções positivas, emoções negativas, pensamento e dissociação.  A abordagem dessa pesquisa será utilizada no próximo post, o qual será tratado com mais profundidade os graus de consciência num sonho lúcido.

Referências Bibliográficas:

REVONSUO, A. Consciousness, dreams and virtual realities, Philosophical Psychology, 8:1, 35-58

WINDT, J. Dreaming: A Conceptual Framework for Philosophy of Mind and Empirical Research. Cambridge: MIT Press. 2015;

GREEN. C. E. (1968). Lucid Dreams, London: Hamish Hamilton.

GRUBER, R -E., Steffen, J – J., & Vonderhaar, S – P. (1995). Lucid dreaming, waking personality and cognitive development. Dreaming, 5 (1), 1 -12.

LABERGE, S., and Gackenbach, J. (2000). Lucid dreaming. In Cardeña, E., Lynn, S.J., and Krippner, S., eds. , Varieties of anomalous experience: Examining the scientific evidence. Washington, D.C. American Psychological Association.

Voss, U., Schermelleh-Engel, K., Windt, J. M., Frenzel, C., and Hobson, J. A. (2013). Measuring consciousness in dreams: the lucidity and consciousness in dreams scale. Conscious. Cogn. 22, 8–21. doi: 10.1016/j.concog.2012.11.001

 
  Tentar se manter lúcido durante um sonho é algo comparável a extrair o prazer de uma onda do mar, surfando e fazendo manobras, sem ser abandonado por ela.

Sonhadores lúcidos se divertindo em seus sonhos, podem ser comparados aos surfistas com suas ondas.  Deve existir uma compreensão da maneira como o sonho precisa seguir o seu fluxo e as possibilidades que existem para serem exploradas. Na imagem, cena do filme Blue Crush.

  É importante entender que tentar controlar o sonho na força, impondo diretamente nossa vontade sobre tudo, invariavelmente resultará num despertar prematuro. Trata-se de um erro bem rotineiro para aquele que se descobre consciente num sonho nas primeiras vezes.

   O grande macete está em compreender a necessidade de existir um fluxo natural do sonho. Podemos sim manter nossa consciência, aproveitando a estrutura natural do sonho que nos é oferecida pelo subconsciente. A vantagem disso será a chance de um sonho lúcido bem prolongado, com muito mais oportunidades de exploração desse fabuloso estado mental.

   Para conseguir isso eu sempre recomendo ferramentas especiais como a utilização de portas, baús, buracos e rodopios. São técnicas de controle indireto em que nossa vontade atua por meio de desejos, usando o que narrativa natural do sonho vai oferecendo.

Usufruir dos prazeres de ficar consciente nos sonhos ou das fantásticas possibilidades de explorar esse estado mental, pode requerer um pouco de sutileza e técnicas simples. Na imagem, o Dr. Estranho e sua aprendiz/namorada, a linda Clea.

   O uso das portas por exemplo, surgiu como uma técnica natural de manipulação pra mim. A presença de casas é tão recorrente que logo me flagrei conseguindo realizar praticamente todos os meus desejos, fosse de apenas prolongar um sonho, encontrar alguém ou algo. Mas reparem que não preciso exercer qualquer grande esforço sobre a narrativa do sonho que é oferecida.

   Eu apenas procuro uma porta e encontro. Como normalmente eu vou estar próximo de alguma casa ou edifício, isso fica fácil de realizar. E principalmente sem bater de frente com o fluxo natural do sonho. Digamos que eu apenas provoco um ligeiro desvio…! Talvez como um pacto que o surfista vai desenvolvendo ao ir aprendendo a natureza da onda, quanto mais conhecermos essa estrutura do sonho, melhor vamos conseguindo aproveitar o que é oferecido. Por vezes, transcender.

O desafio que proponho é mesclar a consciência a narrativa natural do sonho.  Conseguir manter o núcleo da consciência intacto através de intervenções apenas pontuais, utilizando principalmente certas técnicas de controle. Na imagem, desenho de John Buscema, com um dos personagens da Marvel que mais gosto: o Surfista Prateado. A saga é Dia do Julgamento.

 

 

 

   Já relatei por aqui minha primeira experiência de controle dos sonhos, enfrentando um pesadelo, transformando-me no Hulk.
   Era uma época de pesadelos frequentes. Porém chegou um tempo, em que durante meus sonhos, eu conseguia com frequência, perceber que estava sonhando. E rapidamente corria fazer coisas como levantar vôo ou lançar raios, aproveitando ao máximo o tempo que durasse toda aquela fabulosa experiência.

Poder explorar os sonhos, mantendo a consciência de que estamos num sonho criado por nossa mente,  nos dá uma liberdade difícil de ser imaginada. 

   Em outros sonhos eu me transformava em super-heróis, criava muitos personagens e alienígenas!… Um universo fantástico e acredito que muito bem estimulado pelas leituras de livros, como Tarzan e Perry Rhodan, os quais meu pai, pacientemente, revezava a leitura comigo.

   É interessante notar que tanto naquela época, assim como atualmente, parece ser possível distinguir uma espécie de sonho. Trata-se de um estado mental, durante os sonhos, em que apesar de existir essa percepção de estar apenas sonhando, não consigo ir além da capacidade de apenas assumir a narrativa. Posso me tornar um ser poderoso, um semi-deus capaz de varrer qualquer tipo de ameaça ou pesadelo que tente me atormentar.

Uma das partes mais divertidas num sonho lúcido é a oportunidade de usufruir da mais plena liberdade, criar, fazer e sentir e abusar dos desejos.

   Nesse tipo de sonho, parece-me cada vez mais claro, não haver presença da consciência como almejamos durante os sonhos lúcidos ou conscientes. Pelo menos falta a capacidade, por exemplo, de recordar experimentos planejados durante o estado desperto.

   Eu vibro muito durante um sonho lúcido, quando estou voando e tentando lembrar… “espera aí! O que eu havia planejado fazer quando ficasse lúcido num sonho?!”

   Quando em seguida vem a lembrança: “Ah! Eu queria tentar encontrar a primeira casa que eu não consigo lembrar… da época dos meus 3 anos de idade!…”

   Situações como essa exemplificam fatores que parecem determinar a presença incontestável(ao menos para o próprio sonhador) da total força da consciência.

    Vou elencar alguns elementos fundamentais:

– em primeiro lugar, a percepção de estar sonhando,

– conseguir se manter no sonho, evitando o despertar.

– capacidade de recordação de planos elaborados no estado desperto.

– uso de técnicas para manipular ou controlar o sonho(até mesmo sua duração).

    Numa situação em que estejam reunidos todos esses elementos no sonho, o sonho lúcido pode estar acontecendo com um espécie de “superconsciência”. Até que ponto, podemos determinar as diferenças do nosso modo de ser, comparando esse estado mental, com o estado desperto?

Será possível atingir um nível especial de consciência nos sonhos, em que seremos capazes de acessar  nossa mente, sob certos aspectos, de maneira mais eficiente do que no estado desperto?(Na imagem, uma cena do filme Prometheus – achei ótimo!).

    Poderemos acessar memórias inacessíveis do estado desperto? Simular soluções para problemas em que trabalhamos com afinco? Quem sabe, aprimorar nossa própria maneira de ser, explorando características, qualidades e defeitos que não conseguimos vislumbrar quando estamos acordados?

   Que nossa mente é capaz de trabalhar de maneira diferente, enquanto sonhamos, está bem claro. Considerando a quantidade de exemplos de cientistas, pintores, inventores, escritores e filósofos com incríveis relatos de experiências com sonhos… podemos sim investir em experimentos, com o objetivo de acessar e explorar esse tão fascinante caminho.

    Eu gosto de comparar certos estados mentais que fico nos sonhos comuns, com o que poderia ser, um certo tipo de zumbi. É impressionante como as coisas mais psicodélicas e impossíveis podem acontecer nos sonhos e mesmo assim simplesmente a lucidez não acontece. Pior ainda quando isso acontece num sonho que é uma exata simulação do cotidiano.

Num sonho comum, nos deixamos conduzir pelo fluxo natural da narrativa, mas nos sonhos lúcidos passamos a vivenciar a experiência com a capacidade de raciocínio e memória ativas: algo como superar o “estado zumbi”(na foto uma cena da obra-prima: Vingadores).

    Um tema que já coloquei na minha lista de temas recorrentes nos sonhos – e que talvez passe aplicar o Tholey por isso – é sonhar que converso algo relacionado aos sonhos lúcidos. Várias vezes conversei sobre o tema nos sonhos e nenhuminha dessas vezes, tive o “click” de ficar consciente.

    Outro tipo de sonho que já percebi é estar manipulando ou controlando o sonho e depois que acordei, não ter me sentido de fato, consciente nele. É como se existisse um mecanismo que capta estar sonhando, aplica uma adaptação e me permite usar e abusar da imaginação nos sonhos… sem entretanto permitir explorar a consciência durante esse estado mental.

    Vou dar um exemplo:

     “Eu estava fazendo algo quando fui avisado da consulta com minha médica. Seria dezesseis e vinte. Saí do lugar e minha amiga entrou junto no carro em que uma terceira pessoa dirigia. Avisei minha amiga que ela não precisava me levar, pois era muito longe. Que eu pediria um taxi ali num posto próximo. Desci do carro e fui correndo em direção ao posto. Olhei no relógio e apesar de ter pensado que deveria ser quase dezesseis e vinte, no relógio constava DEZENOVE e alguma coisa! rsrsrsrsrs mas não fiquei consciente com isso?!?

O tempo nos sonhos… sempre um tema tão fascinante de se tratar. Nesse sonho em especial eu cheguei a refletir sobre o pouco tempo que DEVERIA ter passado.

   
      Minha amiga me alcançou no posto e dei um tchauzinho pra elas e levantei vôo. Mas na primeira curva encontrei numa boa altura grande fios de energia elétrica. Fui mais alto e mesmo assim não consegui desviar, chegando a queimar um pouco as mãos.

      Desci e havia extensos varais de roupa. Encontrei Lorien e ela estava toda encharcada com a chuva. Fomos juntos até a clínica. E lá havia uma montanha de pedras lisas encaixadas. Era muito alto e molhado. Pensei que meu võo seria difícil naquilo.

       Lá em cima fui questionado se meu amigo havia recebido o chip para eu poder entrar.”

Voar quando se torna um tema recorrente, pode ser trabalhado com o Método Tholey, para ajudar a induzir a consciência nos sonhos.

      Foram dois fatos que ocorreram nesse sonho que poderiam perfeitamente ter me tornado lúcido: a hora do relógio, quando olhei pensando pela lógica ser uma, quando mostrou uma hora estapafúrdia(tinha a percepção de ter passado pouco tempo e refleti sobre isso) e o levantar vôo com naturalidade.

      Peguei esse sonho porque ele tem fortes elementos do meu cotidiano. Mesmo na simulação daquela realidade, pela minha mente, eu percebi a distorção no tempo do relógio, burlei a gravidade e saí voando e mesmo assim não fiquei consciente em momento algum.

      Fica então a questão… ter controle ou a capacidade de manipular a narrativa do sonho, significa o mesmo que consciência?…

Controle X Consciência, sobre a relação que possuem um com o outro, parece-me perfeitamente possível que um possa existir sem o outro num sonho. 

     Stephen LaBerge, aponta um esclarecimento bem interessante sobre sua visão do que é a consciência nos sonhos:

“Provavelmente o impacto que resulta do aparecimento da lucidez é proporcional à clareza e ao grau de finalização da mudança de percepção de quem está sonhando. Há vários graus de lucidez e a sensação comum de despertar de um pesadelo depois de perceber que “foi só um sonho” é característica dos graus mais baixos (ou por que fugir do que é “só um sonho”?), e normalmente vem acompanhada apenas de um alívio relativo. Mas o sonho lúcido mais completo, no qual quem sonha fica no sonho um período suficientemente longo para permitir que tenha uma sensação de maravilha,  pode vir associado a uma sensação eletrizante de renascimento e com a descoberta de um mundo novo  de  sensações.

Não é a toa os séculos de domínio sobre os sonhos lúcidos por parte dos monges tibetanos.  Quando tratamos de sonhos lúcidos estamos lidando com estados alterados de consciência… nos quais eles são indubitavelmente os mestres.




Geralmente, quem tem um sonho lúcido pela primeira vez fica pasmado quando percebe que nunca sentiu antes os próprios sonhos com todo o seu ser e que agora está perfeitamente acordado em pleno sono! Um homem que teve um sonho lúcido descreve a sensação ampliada de vida que sentiu com a chegada súbita de um lampejo de lucidez: sentiu-se possuído de uma sensação de liberdade “que nunca havia sentido antes”; o sonho estava impregnado de uma tal animação vital que “a própria escuridão parecia ter vida”. Nesse ponto apresentou-se um pensamento de uma força tão inegável que o homem foi impelido a declarar:   “Nunca estive  acordado  antes”.

    Esse é um tema que está rendendo uma boa troca de idéias – graças a onironauta Zeti que iniciou o debate – entre os onironautas que frequentam o Fórum de Sonhos Lúcidos… mas afinal, sonhos lúcido é o mesmo que controlar os sonhos?

Saito no Limbo em Inception – A Origem… ficou sem consciência, pois ficou sem memória, perdido sem  conseguir recordar. Que instigantes elementos mais, envolvem a construção e manutenção da nossa consciência?

    Trata-se de uma confusão bem comum tanto entre os interessados em sonhos lúcidos, como o leigo no assunto de sonhos conscientes. Vou mais longe… não é incomum verificar grandes pesquisadores querendo relacionar controle do sonho com grau de lucidez!… Mas será confusão mesmo? Será que capacidade de interferir na narrativa de um sonho, está diretamente relacionado ao grau da consciência durante o sonho?

    Vamos começar pelo que é mais pacífico entre os onironautas. Os sonhadores lúcidos que já tiveram a oportunidade de se sentir consciente num sonho, mas não conseguiram interferir na narrativa ou realizar simples desejos, como sair voando, fazer alguma criatura desaparecer ou apaziguar um cenário aterrador…

No estado mental dos sonhos lúcidos, podemos nos defrontar com situações inusitadas,  coisas que não queremos ver, personagens que não  conseguimos nos livrar… a cena da imagem é do excelente desenho japonês Páprika, com uma bela abordagem sobre sonhos.

     Para os sonhadores lúcidos que já tiveram a experiência de ficar lúcidos num sonho, sem conseguir controlar o sonho, fica clara a independência que parece existir entre os dois elementos. Está claro que podemos manter essa consciência, sem entretanto tomar as rédeas da narrativa. Tyler que é um onironauta experiente, cita por exemplo o “controle passivo”, como uma boa técnica para prolongar o sonho lúcido, sem o despertar prematuro. O que vai de encontro ao que Stephen LaBerge alerta no seu livro Sonhos Lúcidos: para não ficar tentando, num desperdício de energia, forçar o controle do sonho, causando um prematuro despertar(erro bem comum entre os onironautas iniciantes).

    De fato, parece que temos então, um bom indício de uma certa relação entre consciência X controle, porém ao mesmo tempo, vamos percebendo que estamos trabalhando com objetos distintos.

Como não erguer Mjolnir se eu sei que tudo isso é meramente um sonho meu??? Na imagem, o bom e digno filme do Thor 😉

    Agora, surge outra questão fascinante, se é possível manter a consciência num sonho, sem controle da narrativa… será possível controlar um sonho sem estar consciente nele?!? Como seria um sonho assim?

     
        Imagine-se estar numa praia, sol, céu azul, mar cristalino, caminhando  sobre uma agradável areia macia e  de relance você repara que sua mão parece ter tantos dedos que você mal consegue contar!… 
  Inspirado numa queixa de uma onironauta(Lena Chan) resolvi fazer um texto especial sobre os motivos que podem levar a gente a fracassar em fazer coisas simples nos sonhos, como voar!…
        Dedos grandes, pitocos, finos, gordinhos, longos como um spaguetti… e aí aquela certeza acachapante te invade visceralmente: estou sonhando! A euforia toma conta e rapidamente você procura se controlar, pois a essa altura o sol já cedeu espaço a uma escuridão esmagadora, não há céu, não há mar a areia virou um chão cinzento e duro. 
        Num lampejo de esperança você junta as duas mãos-cacho-de-bananas e as esfrega. Esfrega e esfrega desejando que tudo volte a brilhar como estava antes. E consegue. 
      Agora mantendo a serenidade, resolve fazer um pequeno vôo. Dá uma corridinha um salto com força e… aquela incontrolável vontade de voar se transforma num corpo de cabeça pra baixo, quase estático, flutuando em câmera-lenta, há poucos centímetros do chão. Que lástima… e então acorda.
Como explicar a presença da nossa consciência no sonho, mas a incapacidade de exercer o controle sobre ele?
          
          Como explicar essa incapacidade de não conseguir sequer dar uma voadinha num sonho que deveria ser todo seu??? Podemos enumerar diversas situações parecidas de sonhos nossos e de outros onironautas:
– “não consigo atravessar uma parede!”
– “o raio não saia da minha mão…”
– “os carros não explodiam”
– “eu não conseguia pousar!…”
           Talvez a maior parte da resposta já tenha sido dada nos textos em que procuro explicar que existe diferença entre controlar um sonho e ficar consciente. Nesse exemplo da praia, existe absoluta consciência de tudo ser apenas um sonho.  O reality check(teste de realidade) das mãos servindo bem, mas “neca de pitibiribas” em termos de manipulação ou controle dos sonhos…
    
       Uma hipótese bem ventilada por sites norte-americanos é que isso estaria diretamente relacionado com o grau de lucidez alcançado. Simplificando: um grau de lucidez mais intenso lhe permitiria controlar facilmente o seu sonho. Eu discordo disso radicalmente. Meu argumento vai no sentido de que podemos controlar os sonhos mesmo sem a lucidez. 
        Ora, se isso é possível e de fato acontece, de controlarmos a narrativa do nosso sonho, interferindo e manipulando, qual o sentido de querer alegar que o controle não acontece por faltar um grau maior de consciência? Parece de fato não existir relação alguma entre algum hipotético “grau de consciência” e sua capacidade de  controlar seu sonho.
        Minha hipótese vai no sentido de que nós podemos controlar mais ou menos nossos sonhos, de acordo com o grau de intensidade da nossa autoconfiança. Mas não há novidade alguma nisso. Eu brinco alegando dizer “minha” hipótese. Tenho certeza que muitos outros onironautas já devem ter percebido isso. Pelo menos boa parte daqueles que já se encontraram nessa situação, de estar consciente num sonho, mas incapaz de controlar coisa alguma no sonho. 
           Essa idéia da falta de autoconfiança remete de modo perfeito para uma cena do Matrix, em que o Neo está conversando com uma das crianças, uma dos “iniciados” do Oráculo e esse lhe dá uma bela explicação: