Tag

Pesquisas sobre sonhos lúcidos

Browsing
Daniel Dennett ¹, um conhecido filósofo da mente, já citado no texto anterior, apresentou uma interessante alternativa a forma como é aceita a concepção dos sonhos. Dentro dessa teoria, ocorre uma explicação razoável para eventos coincidentes nos sonhos com acontecimentos na vida desperta. Coincidências essas normalmente chamadas de sonhos precognitivos…
Com a Teoria da Biblioteca dos Cassetes, proposta por Daniel Dennett, nossos sonhos não seriam experimentados e a própria memória está comprometida. Assim, não estaríamos vivenciando aqueles relatos, mas na melhor das hipóteses, conseguindo trazer da memória alguns eventos ali gravados e reproduzidos no despertar. Desse modo, os sonhos não seriam tecnicamente experimentados, mas apenas recordados, extraídos de nossa biblioteca mental… como em cassetes.
Em seu texto, Dennett
(1978) afirma que, de acordo com a concepção da teoria dos cassetes,
nossos sonhos “pré-cognitivos” nunca são sonhados de forma alguma, mas apenas
supostamente “lembrados” ao acordarmos. Sendo assim, os mecanismos de memória
estariam vazios até o momento de acordar e não se trataria de episódios
experimentados.  Não existindo assim, a experiência do sonhar.
Como certos sonhos parecem tão diretamente influenciados
pela narrativa, com seus desfechos, incidindo coincidência com eventos do
ambiente ao despertar, cria-se a questão de como os sonhos poderiam antecipar acontecimentos
do estado desperto. Essa questão, proposta por Dennett (1978), cita um exemplo:
“num experimento em laboratório, no qual formas diferentes estavam sendo
utilizadas, para efetuar o despertar de pessoas que sonhavam e nesse caso, uma
delas foi estimulada a acordar, com pingos de água fria nas costas. Seu relato,
informou que estava cantando numa ópera, quando de repente percebeu a soprano
ser atingida por pedaços do teto; o sonhador foi em direção a soprano e ao se
debruçar para protege-la, sentiu em suas costas o gotejar da água fria.”
 
 
 
Teixeira (2008) ² chama atenção para alguns pontos positivos e outros negativos da teoria proposta por Dennett. Nesse sentido, favoravelmente, com a relação estreita entre o despertar e a capacidade de recordação, encaixando-se como fenômeno alucinatório instantâneo ao acordar, a teoria dos cassetes cobriria assim, como uma alternativa a ideia de existência de sonhos pré-cognitivos.
Certos fenômenos de antecipação de eventos ou precognição ao despertar poderiam ser explicados. De acordo com Teixeira, um telefone que é avistado no sonho e começa a tocar, em coincidência com o sonho?…  Para o filósofo brasileiro, através da teoria dos cassetes: “A resposta de Dennett é que este tipo de sonho ocorre precisamente ao despertar e se explica pelo despertar. Afora esta solução, a única alternativa seria introduzir o conceito de precognição em nossa teoria do conhecimento, o que, neste caso, equivaleria a trocar o obscuro pelo mais obscuro, pois este é um fenômeno sobre o qual praticamente nada sabemos”.
Bibliografia:
(1)DENNET, Daniel C. Brainstorms: Ensaios Filosóficos Sobre Mente e Psicologia. São Paulo: UNESP, 1978.
(2)TEIXEIRA,
F. J. A mente segundo Dennett. Perspectiva
São Paulo: Perspectiva, 2008.
    Neurocientistas do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano de Berlin e Instituto Max Planck de Psiquiatria em Munique, descobriram que a área responsável pela auto-reflexão é morfologicamente maior em pessoas com a habilidade de ficar consciente nos sonhos.
Imagem de cena do filme Waking Life.
     Isso poderia implicar na possibilidade de que sonhadores lúcidos – em se comparando com pessoas que nunca tiveram ou raramente conseguem ter sonhos lúcidos – teriam maior capacidade de auto-reflexão ou metacognição.
   Por metacognição, pode-se entender uma habilidade de perceber os próprios estados mentais e reflexão acerca dos próprios pensamentos. Nas palavras das psicólogas Cláudia Dantas e Camila Cruz Rodrigues:
“O conceito de metacognição está relacionado à consciência e ao automonitoramento do ato de aprender. É a aprendizagem sobre o processo da aprendizagem ou a apropriação e comando dos recursos internos se relacionando com os objetos externos. A metacognição é a capacidade do ser humano de monitorar e autorregular os processos cognitivos.”
   A teoria é baseada em imagens de experimentos, em pessoas testadas enquanto resolviam exercícios metacognitivos, no estado desperto. Essas imagens mostraram que a atividade do córtex pré-frontal era mais intensa em sonhadores lúcidos. “Nossos resultados indicam que a auto-reflexão no dia-a-dia é mais pronunciada em pessoas que podem facilmente controlar seus sonhos”, declara Elisa Filevich, pesquisadora do Centro de Psicologia de Lifespan do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano.
Imagem do excelente filme Waking Life
      Os pesquisadores procuram descobrir se as habilidades metacognitivas podem ser treinadas. Em um estudo seguinte, deve-se direcionar as pesquisas para o treino de voluntários na indução de sonhos lúcidos e examinar os resultados, verificando alguma possível relação com a melhora na capacidade de auto-reflexão.
Referência Bibliográfica:
Kühn S, Brick TR, Dresler M, Filevich E. Metacognitive mechanisms underlying lucid dreaming. The Journal of Neuroscience. 2015.
Cláudia Dantas; Camila Cruz Rodrigues. Estratégias metacognitivas como intervenção psicopedagógica para o desenvolvimento do automonitoramento. Revista Psicopedagogia. vol.30 no.93 São Paulo  2013.
     Apesar do que aponta o senso comum, a percepção do tempo enquanto sonhamos parece ser o contrário do que muitos pensam: no sonho, sentimos o tempo de maneira mais lenta do que no estado desperto.
Pilotos costumam refazer mentalmente a trajetória da pista… em um sonho lúcido, pode-se percorrer a pista em um simulador que emula a realidade.
     Daniel Erlacher e outros pesquisadores, pela Universidade de Bern, verificaram uma interessante diferença de tempo, entre a execução de certas atividades no estado desperto e durante um sonho lúcido. Não foram as primeiras pesquisas realizadas na área. O próprio pesquisador já havia conseguido resultados intrigantes em 2004, juntamente com Michael Schredl. Essa pesquisa foi divulgada nesse site e pode ser conferida aqui.
     Há dez anos, Erlacher e Schredl identificaram que os sonhadores lúcidos, no momento em que estavam sonhando(e conscientes), eram capazes de executar contagens(de 1 até 10) em um período muito próximo da vigília. Porém uma diferença superior a 44,5%% acontecia quando esses mesmos sonhadores lúcidos realizavam exercícios de agachamento. Em suma: em se comparando com o estado desperto, nos sonhos, surgia uma lentidão ou percepção mais lenta do tempo.
     Nesse novo estudo, outras atividades foram cumpridas: caminhada, exercícios de ginástica e contagem de 01 até 30. Através do novo estudo, verificaram que os voluntários, executavam certas atividades(caminhada e ginástica),com uma lentidão até 50% maior do que na vigília(acordados). Imagine-se treinando nos sonhos algum tipo de esporte, como por exemplo a corrida. Quando estiver sonhando, a percepção da execução da atividade irá acontecer com essa lentidão.
Imagem do ótimo filme Cidade das Sombras
        Interessante notar que a diferença de percepção caiu quando os sonhadores lúcidos executavam contagens de 01 até 30. Foram três experimentos nesse sentido: contaram de 01 até 10, 01 até 20 e 01 até 30. A lentidão foi em média 27,2% maior do que no estado desperto.
         A possibilidade de utilizar o cérebro, no estado mental dos sonhos lúcidos, como um grande e eficiente simulador está ficando cada vez mais em evidência. Mesmo que nossa mente não seja capaz de emular em detalhes certas condições do ambiente, ainda assim, oferece a oportunidade de aprimorarmos nossas habilidades, desempenhando performances em câmera-lenta.
        De acordo com Erlacher: “É claro que há limites – você não pode melhorar a resistência , mas se você tiver bom simulador no cérebro, pode usá-lo para melhorar e estabilizar as técnicas. Eu vejo isso como um grande potencial para as disciplinas com um alto nível técnico”.

Fontes:

http://journal.frontiersin.org/Journal/10.3389/fpsyg.2013.01013/full

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3893623/

     Para aqueles interessados em conhecer possibilidades de pesquisa na área dos sonhos lúcidos, esse texto talvez possa servir de auxílio. Trata-se de algumas opções de estudo ou trabalho, para quem quer se aprofundar no mundo da pesquisa, relacionado ao campo da consciência nos sonhos.

    Psicologia

     São diversos caminhos que podem ser seguidos, seja pela psicologia, medicina, biologia, filosofia, entre outros. A começar pelo caminho que escolheram Daniel Erlarcher e Stephen Laberge, graduando-se em psicologia e se direcionando para seus doutorados em psicofisiologia.

Daniel Erlarcher se graduou em psicologia e suas especializações se voltaram para a área desportiva e mais especificamente para a psicofisiologia. Produziu resultados fascinantes relacionando o aumento da performance no estado desperto, de atividades envolvendo coordenação motora, durante os sonhos lúcidos.

No caso de Stephen LaBerge, o pesquisador pioneiro na área, ao se utilizar da comunicação com os olhos, durante os sonhos, como forma de comprovação do estado mental consciente, ainda no estado mental dos sonhos.

    Medicina

    Observando o exemplo do pesquisador brasileiro, Sérgio Rolim, oriundo da medicina e que avança em áreas relacionadas com a medicina do sono, neurofisiologia e psicobiologia. Existem possibilidades de pesquisas voltadas para a psiquiatria, com as relações de transtorno mentais, como a esquizofrenia e depressão.

    Tecnólogo do Sono

Parece-me um tipo de profissão ainda não encontrada no Brasil. Na área de tecnologia do sono, estuda-se aspectos relevantes da Medicina do Sono, com tecnólogos  do sono auxiliando na avaliação,  acompanhamento e cuidado de pacientes com distúrbios do sono. Tecnologia do sono é reconhecido como uma profissão lá fora. O âmbito da prática de tecnólogos sono lhes permite trabalhar em centros de sono, laboratórios para distúrbios do sono relacionados com respiração, ambientes domésticos e configurações não baseadas em instalações sob a direção do especialista do sono.

 Filosofia da Mente

Um dos grandes mistérios da vida contemporânea, a consciência está cada vez mais atraindo estudiosos de diversas áreas, seja para tentar decifrar esse fabuloso enigma ou para entrar no debate sobre seus tipos e naturezas. É possível encontrar alguns grandes filósofos como Daniel Dennet, passando a ter que tratar com os sonhos e a consciência no campo da filosofia da mente.

Esse texto surgiu através de uma sugestão de uma sonhadora lúcida, a Larissa Ettinger.

Fonte:
http://www.dreamviews.com/general-lucid-discussion/108390-education-career-paths-lucid-dreamer.html

Uma instigante pesquisa envolvendo sonhadores lúcidos, mostrou em média maior da presença de insights na resolução de problemas em comparação com a população que não relata ter esse tipo de experiência.

A pesquisa foi realizada na Universidade de Lincoln – Reino Unido, envolvendo a participação de 68 voluntários, entre 18 e 25 anos, dos quais 20 eram sonhadores lúcidos. As pessoas com capacidade de ficarem conscientes em seus sonhos, conseguiam índice 25% maior de acerto nos problemas apresentados.

A natureza das questões propostas eram acerca da determinação de uma palavra específica, numa sequencia de quatro palavras. Sequencia como: “areia, milha e idade”, sendo o resultado “pedra”. Os voluntários que conseguiam ficar conscientes em seus sonhos, apresentaram performance 25% superior e o pesquisador Dr. Patrick Bourke especula motivos para esse resultado:

“É  possível que para o sonhador lúcido ficar consciente enquanto dorme, deva ver além daquela realidade esmagadora do seu estado de sonho e reconheça que está sonhando”.

“A mesma capacidade cognitiva de pensar de uma forma diferente foi demonstrada quando se trata de resolver problemas durante o estado desperto.”

Fonte:
http://www.sciencedaily.com/releases/2014/08/140812121839.htm

Pesquisa em laboratório de sono, consegue provocar a indução de sonhos lúcidos através de estímulos de 40 Hz, ou seja com ondas gama. Pesquisar o estado mental dos sonhos lúcidos, com a presença da consciência do sonhador é uma oportunidade estimulante para o avanço nos estudos sobre a natureza da consciência.

Imagem do excelente filme Source Code – Contra o Tempo.

Cientes de alguns mecanismos e atividades cerebrais, envolvidos no evento da consciência durante os sonhos lúcidos, Ursula Voss e outros neurocientistas da Universidade de Frankfurt realizaram experimentos para induzir sonhos lúcidos em laboratório.

O experimento envolveu o recrutamento de 27 voluntários que nunca tinham tido um sonho lúcido(ou que pelo menos não se recordavam), para receberem o estímulo craniano nas regiões dos lobos frontal e temporal. Quando os estímulos eram de 40 Hz – ondas gamas, o cérebro reproduzia a mesma frequência e em 77% das vezes resultou em lucidez.

Segue o relato de um voluntário:

“Eu estava sonhando com torta de limão. Parecia translúcida, mas, ao mesmo tempo, não eram. Lembrava um pouco um desenho animado, como os Simpsons. Então eu comecei a cair e o cenário mudou e então eu estava falando com Matthias Schweighöfer [um ator alemão] e mais dois estudantes estrangeiros de intercâmbio. Eu estava pensando sobre o ator e eles me disseram ‘sim, você encontrou ele antes’, e então eu percebi ‘ops, você está sonhando’. Quer dizer, enquanto eu estava sonhando! Tão estranho”.

Fonte:
http://www.nature.com/neuro/journal/v17/n6/full/nn.3719.html